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Quarta-feira, 21 de Janeiro 2026

Polícia

A polícia agora investiga a própria polícia

Polícia investiga delegacia por suposto vazamento em caso dos paulistas mortos no Paraná; Corregedoria apura se dois agentes facilitaram fuga de pai e filho suspeitos de executar cobradores de dívida em Icaraíma

Conexão ES Redação
Por Conexão ES Redação
A polícia agora investiga a própria polícia
PMPR Ambiental / Reprodução
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A Corregedoria da Polícia Civil do Paraná investiga dois policiais lotados em Icaraíma, no Noroeste do Estado, por suspeita de terem repassado informações que podem ter facilitado a fuga dos principais investigados pela execução de quatro paulistas contratados para cobrar uma dívida na região. Se as suspeitas forem confirmadas, os agentes podem ser demitidos e responder por favorecimento pessoal e corrupção.

Os alvos do inquérito interno não tiveram os nomes divulgados. Eles atuavam na pequena delegacia de Icaraíma e, segundo a própria corporação, participavam de várias frentes de apuração, inclusive da investigação inicial sobre o desaparecimento dos quatro homens, em agosto deste ano.

Suspeita de vazamento após fuga dos investigados

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De acordo com o delegado Gabriel Menezes, responsável pelo caso, os dois policiais chegaram a participar das primeiras diligências de campo, logo após o registro do desaparecimento das vítimas. A conduta deles passou a ser questionada quando surgiram indícios de que informações sensíveis sobre o andamento das investigações poderiam ter chegado aos suspeitos.

A partir daí, o acesso aos detalhes da apuração foi restringido, inclusive dentro da própria unidade, e os dois servidores foram afastados da investigação principal e realocados para outra delegacia. Mandados de busca e apreensão foram cumpridos, com coleta de celulares e equipamentos eletrônicos, que agora passam por análise pericial.

A polícia não detalhou que tipo de dado poderia ter sido vazado nem em que momento isso teria ocorrido. A linha de apuração é se, após o crime, as informações repassadas contribuíram para a fuga dos suspeitos ou para a destruição de provas.

Quatro mortos após cobrança de dívida

O caso que expôs a delegacia de Icaraíma começou em 5 de agosto, quando os paulistas Robishley Hirnani de Oliveira, Rafael Juliano Marascalchi e Diego Henrique Affonso saíram de São José do Rio Preto (SP) para cobrar uma dívida no interior do Paraná, acompanhados de Alencar Gonçalves de Souza, morador da região.

Eles foram contratados para pressionar o pagamento de R$ 255 mil referentes a uma negociação de propriedade rural com a família Buscariollo. Os principais suspeitos apontados pela Polícia Civil são pai e filho: A. B., de 66 anos, e P. R. C. B., de 22, considerados foragidos desde 9 de agosto.

Imagens de câmeras de segurança mostram as vítimas em uma padaria pouco antes de seguirem, em uma picape Fiat Toro, em direção à área rural de Vila Rica. Segundo a investigação, elas teriam sido mortas em uma emboscada na fazenda que era objeto da dívida, por volta das 12h30, com disparos feitos de pelo menos três posições diferentes e com uso de cinco armas de fogo, incluindo um fuzil.

Corpos e veículo enterrados em área de mata

Após 45 dias de buscas, os corpos dos quatro homens foram encontrados em 18 de setembro, enterrados em uma cova em área de mata em Icaraíma. Laudos apontaram múltiplos disparos na cabeça, no tórax e nos membros das vítimas, em pontos vitais, o que afastou a hipótese de sequestro prolongado ou tortura.

A poucos centenas de metros dali, a polícia encontrou a Fiat Toro enterrada em um bunker, coberta por lona, com marcas de tiros, sangue, vidros quebrados e bancos danificados. A localização do veículo foi obtida a partir de uma carta anônima recebida por familiares e do apoio de um informante.

Laudos de necropsia indicaram que os corpos estavam em estado de saponificação, condição em que a decomposição é retardada por características do solo, o que favoreceu a preservação de vestígios balísticos e a identificação das vítimas.

Possível elo com crime organizado

Durante a investigação, áudios recuperados pela Polícia Civil mostraram que as próprias vítimas demonstravam preocupação com o perfil dos devedores. Em um dos trechos, Alencar afirma temer retaliação, citando que os Buscariollo “mexiam com coisa errada” na região, suspeita que incluía contrabando de cigarros e tráfico de drogas.

Em outro áudio, Diego relata à esposa que o “velho anda armado” e descreve um clima de tensão na cidade, com pessoas se escondendo e receio de tiroteio. Esses elementos reforçaram a hipótese de envolvimento de grupos criminosos locais, embora a polícia ressalte que ainda não há conclusão definitiva sobre o grau de ligação dos suspeitos e das vítimas com o crime organizado.

Para compreender o contexto completo, os investigadores também levantaram o histórico criminal de parte dos envolvidos. Três das vítimas tinham passagens por crimes como ameaça, estelionato, tráfico de drogas, tentativa de homicídio e violência doméstica; Alencar não tinha antecedentes. Antônio Buscariollo responde por posse ilegal de arma; Paulo não tem registros anteriores.

Do desaparecimento à investigação interna

O caso começou como um desaparecimento de quatro homens, registrado inicialmente pela polícia paulista, e rapidamente ganhou contornos de crime violento de alta complexidade, com cooperação entre as polícias de dois Estados.

Com o avanço das buscas no Paraná, a descoberta do bunker e da cova coletiva consolidou a linha de investigação de execução em emboscada, associada à cobrança da dívida de R$ 255 mil e a possíveis negócios ilícitos na região.

Paralelamente, surgiram indícios de que informações sobre diligências e estratégias de busca poderiam ter sido compartilhadas indevidamente por dentro da delegacia de Icaraíma. A partir daí, a Corregedoria assumiu um eixo próprio de apuração, focado na conduta dos dois policiais agora investigados.

A Polícia Civil do Paraná afirma que não há prazo definido para a conclusão do inquérito disciplinar, em razão do volume de dados periciados em celulares e equipamentos eletrônicos. A corporação também montou uma força-tarefa para análise de todo o material relacionado ao caso principal — desde laudos balísticos até a reconstrução da rota das vítimas e dos suspeitos.

Direito de defesa

Os policiais investigados e suas defesas, assim como os demais citados na investigação, podem procurar a reportagem da Revista Conexão para apresentar suas versões e esclarecimentos. O espaço permanece aberto para manifestações futuras.

O que você precisa saber

  • Dois policiais civis são investigados pela Corregedoria do Paraná por suspeita de repassar informações que teriam facilitado a fuga dos principais suspeitos de matar quatro paulistas em Icaraíma.

  • Os agentes trabalhavam na delegacia de Icaraíma e participaram das primeiras diligências, mas foram afastados da investigação principal após surgir a suspeita de vazamento.

  • Os principais suspeitos do crime são pai e filho, apontados como devedores de uma dívida de R$ 255 mil relacionada a uma propriedade rural; ambos estão foragidos desde agosto.

  • As quatro vítimas saíram de São José do Rio Preto (SP) para cobrar a dívida e desapareceram em 5 de agosto; os corpos foram encontrados 45 dias depois, enterrados em área de mata em Icaraíma.

  • Laudos indicam execução em emboscada, com disparos de pelo menos cinco armas de fogo em pontos vitais; não há indícios de cativeiro ou tortura prolongada.

  • O veículo das vítimas foi achado enterrado em um bunker, com marcas de tiros e sangue, a poucos centenas de metros da cova onde estavam os corpos.

  • Áudios mostram que as próprias vítimas temiam reação violenta, citando possível envolvimento dos devedores com contrabando de cigarros e tráfico de drogas.

  • A Polícia Civil ainda não concluiu a autoria do crime, investiga eventual ligação com o crime organizado e não tem prazo para encerrar nem o inquérito principal nem a apuração interna sobre os policiais.

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