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Segunda-feira, 16 de Março 2026

Ciência & Tecnologia

Bebê nos EUA recebe tratamento genético inédito para doença rara

Caso é o primeiro do mundo a usar edição genética personalizada com CRISPR para corrigir mutação específica e evitar transplante de fígado em recém-nascido

Cláudio Pazetto
Por Cláudio Pazetto
Bebê nos EUA recebe tratamento genético inédito para doença rara
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Um bebê norte-americano de apenas dez meses se tornou o primeiro ser humano no mundo a receber uma terapia genética personalizada com CRISPR, tecnologia de edição de DNA. A intervenção, inédita e feita sob medida para corrigir uma única mutação genética causadora de uma condição metabólica rara, marca um novo capítulo na medicina de precisão.

O caso de KJ Muldoon, diagnosticado com deficiência de carbamoil-fosfato sintetase 1 (CPS1), foi publicado nesta quinta-feira (15) na New England Journal of Medicine, uma das revistas científicas mais respeitadas do mundo. O tratamento foi realizado no Hospital Infantil da Filadélfia, nos Estados Unidos, com apoio da Penn Medicine e de outras instituições. Embora ainda seja cedo para falar em cura definitiva, os resultados já apontam para um avanço expressivo.

Doença rara, risco alto

A deficiência de CPS1 afeta o ciclo da ureia, impedindo o corpo de eliminar o excesso de amônia — uma substância tóxica para o cérebro e outros órgãos. A doença é considerada grave e, em sua forma mais severa, tem taxa de mortalidade infantil de cerca de 50%. Em casos extremos, o transplante de fígado é a única saída, mas KJ ainda não era elegível para o procedimento.

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Diante do risco de agravamento, a equipe médica propôs aos pais um plano ousado: desenvolver uma terapia genética personalizada com tecnologia de edição de base (base editing), uma variação mais precisa do CRISPR que altera uma única “letra” do DNA sem fazer cortes na sequência genética.

Como funcionou a terapia

O código genético corrigido foi inserido em nanopartículas lipídicas projetadas para atingir o fígado do bebê, onde ocorre o ciclo da ureia. Antes da aplicação em KJ, a terapia passou por testes pré-clínicos rigorosos em laboratório, camundongos e primatas. A FDA (agência reguladora dos EUA) autorizou o uso emergencial da técnica, dada a gravidade do caso e o histórico promissor nos testes.

Entre fevereiro e abril, KJ recebeu três doses do tratamento. Após a primeira aplicação, os níveis de amônia começaram a estabilizar e os médicos conseguiram aumentar a ingestão de proteínas em sua dieta. Com as doses seguintes, foi possível reduzir gradualmente os medicamentos que mantinham o metabolismo sob controle. A última dose foi aplicada recentemente, e o bebê segue sendo monitorado de perto.

Resultados e impacto

Segundo os médicos responsáveis, o tratamento teve resposta clínica positiva: KJ passou de um quadro grave para um estado relativamente estável. Com quase 10 meses de vida, o bebê já consegue se sentar, se alimentar com mamadeira e apresenta ganhos de peso — algo impensável antes da terapia. Ele deve receber alta em breve e se reunir com os pais e os três irmãos.

Para os pesquisadores, o sucesso de KJ representa uma virada de paradigma no tratamento de doenças genéticas raras. Como o tratamento foi desenvolvido exclusivamente para o DNA do paciente, não poderá ser replicado em outros casos. Mas o método e os aprendizados da equipe poderão acelerar o desenvolvimento de terapias sob medida para outras mutações específicas.

“É um marco na medicina de precisão. Mostra que é possível criar soluções personalizadas até para doenças que hoje não têm tratamento”, afirmou o pesquisador Bruno Solano, da Fiocruz e do IDOR, especialista em terapia genética.

Futuro da medicina de precisão

O uso da edição de base com CRISPR em humanos é uma fronteira científica recente, e o caso de KJ demonstra o potencial dessa abordagem em tempo real. Segundo especialistas, os próximos passos incluem reduzir os custos, tornar o processo mais rápido e ampliar o acesso, inclusive para países com menos recursos.

“Este é o futuro da medicina”, declarou o professor Kiran Musunuru, da Penn Medicine, que participou do desenvolvimento da terapia. “É o primeiro passo para tratar uma ampla variedade de doenças genéticas ultrarraras com soluções personalizadas.”

Com o avanço da engenharia genética e o apoio de agências regulatórias, espera-se que casos como o de KJ deixem de ser exceção e passem a representar uma nova era no enfrentamento de doenças até então incuráveis.

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