SÃO MATEUS (ES) — O Espírito Santo produz cerca de 70% do café conilon brasileiro. São mais de 49 mil propriedades rurais, 258 mil hectares cultivados e uma produção estimada superior a 14 milhões de sacas. Os números mostram a força da cafeicultura capixaba, mas também levantam uma questão: como fazer essa produção gerar mais renda para quem está no campo?
A resposta foi discutida por representantes de três importantes cooperativas do Estado durante a Feira Internacional do Café Conilon (FICC 2026), realizada de 8 a 10 de outubro, em São Mateus.
No painel realizado na quinta-feira (8), Cooabriel, Nater Coop e Cafesul defenderam avanços na qualidade dos grãos, na adoção de tecnologias, na infraestrutura logística e na conquista de compradores que valorizem o produto capixaba.
Participaram do encontro Luiz Carlos Bastianello, presidente da Cooabriel; Marcelino Bellardt, CEO da Nater Coop; e Renato Theodoro, presidente da Cafesul. A mediação foi de Vinícius Schiavo, analista de Desenvolvimento Cooperativista do Sistema OCB/ES.
Produzir mais já não é suficiente
Durante o debate, os dirigentes apontaram que o crescimento da produção precisa ser acompanhado de melhorias capazes de aumentar o valor comercial do café.
Para Renato Theodoro, presidente da Cafesul, a qualidade é uma das principais condições para alcançar mercados que oferecem melhor remuneração.
Problemas como grãos mofados e gosto de fumaça podem comprometer a comercialização, mesmo quando o produtor investe em outras etapas da atividade.
O dirigente também chamou atenção para as dificuldades enfrentadas por cafeicultores das regiões montanhosas, onde a topografia limita a mecanização e aumenta a dependência de mão de obra.
Nesse cenário, a escassez de trabalhadores e a sucessão familiar tornam-se desafios para a continuidade da produção.
A avaliação é que os próximos anos exigirão maior integração entre o conhecimento acumulado pelos produtores e as tecnologias disponíveis para melhorar o manejo, a qualidade e a eficiência das propriedades.
Cooabriel projeta protagonismo do conilon brasileiro
Para Luiz Carlos Bastianello, presidente da Cooabriel, a cafeicultura precisará rever práticas e estratégias para enfrentar as transformações do setor.
Mudanças climáticas, falta de mão de obra e exigências crescentes dos compradores estão entre os fatores que devem influenciar as decisões dos produtores.
Apesar dos desafios, Bastianello demonstrou confiança no potencial de crescimento do conilon.
“Daqui a 10 anos, eu vejo o Conilon como protagonista dos cafés do Brasil”, afirmou.
A projeção está relacionada aos avanços de qualidade alcançados pelo produto e às oportunidades de ampliar sua participação no mercado.
Entretanto, o dirigente destacou que a competitividade também depende de investimentos fora das propriedades rurais.
A melhoria das rodovias e da infraestrutura portuária e aérea foi apontada como necessária para reduzir dificuldades de transporte e permitir que a produção chegue aos compradores com maior eficiência.
Logística pode influenciar o preço recebido pelo produtor
O custo para transportar o café é um dos fatores que interferem na competitividade da produção capixaba.
Mesmo quando os grãos apresentam boa qualidade, dificuldades no escoamento podem elevar despesas e reduzir as vantagens comerciais diante de concorrentes de outras regiões e países.
Por isso, a infraestrutura logística apareceu no debate como uma questão estratégica para o futuro da cafeicultura.
A discussão envolve rodovias, operações portuárias e a capacidade de conectar as regiões produtoras aos mercados consumidores.
O tema também integrou a programação técnica da FICC 2026, que reservou painéis para discutir investimentos no Norte do Espírito Santo e o futuro da logística estadual.
Nater Coop vê oportunidade de conquistar mercados mais valorizados
O CEO da Nater Coop, Marcelino Bellardt, destacou que o crescimento da demanda mundial por café pode abrir novas oportunidades para o conilon capixaba.
Entretanto, ampliar as vendas não significa necessariamente alcançar preços melhores.
Segundo Bellardt, cafés produzidos em outros países conseguem maior valorização em determinados mercados, o que demonstra a importância de construir estratégias comerciais voltadas à diferenciação do produto.
Para o dirigente, o Espírito Santo precisa continuar investindo em qualidade e buscar compradores capazes de reconhecer as características do conilon produzido no Estado.
A proposta é aproximar a produção capixaba de mercados que ofereçam melhores oportunidades de remuneração, em vez de concentrar os esforços exclusivamente no aumento do volume comercializado.
Três cooperativas, diferentes realidades
O encontro reuniu organizações com perfis distintos de atuação, mas que compartilham desafios relacionados ao desenvolvimento da cafeicultura.
A Cooabriel, sediada em São Gabriel da Palha, é considerada a maior cooperativa de café conilon do Brasil e reúne mais de 9,7 mil cooperados.
A Nater Coop possui mais de 25 mil cooperados e atua no Espírito Santo, em Minas Gerais e na Bahia, atendendo mais de 30 mil produtores rurais.
Já a Cafesul, com sede em Muqui, tem forte ligação com pequenos produtores do Sul capixaba. Entre suas áreas de atuação estão a produção de cafés especiais, a agricultura familiar e a sustentabilidade.
Para o curador da FICC, Marcus Magalhães, a presença das três cooperativas permitiu discutir o futuro do setor a partir de diferentes experiências.
“São cooperativas que têm uma enorme capacidade de gerar valor, levar conhecimento e tecnologia para o campo, abrir mercados e fortalecer as comunidades onde estão inseridas”, afirmou.
O que pode mudar na cafeicultura nos próximos anos?
O debate mostrou que a valorização do café conilon depende de medidas complementares.
Nas propriedades, os desafios incluem melhorar a qualidade dos grãos, incorporar tecnologias, enfrentar a escassez de trabalhadores e preparar a sucessão familiar.
Para as cooperativas, uma das prioridades é ampliar o acesso a compradores e mercados que reconheçam a qualidade do produto.
Já os investimentos em infraestrutura são considerados importantes para reduzir custos e melhorar as condições de comercialização.
O conjunto dessas ações pode influenciar a capacidade do Espírito Santo de manter sua liderança produtiva e conquistar posições mais valorizadas no mercado nacional e internacional.
A discussão ocorreu durante a segunda edição da FICC, que reuniu produtores, cooperativas, empresas e especialistas em São Mateus, com programação voltada à tecnologia, negócios, sustentabilidade e desenvolvimento regional.
O que você precisa saber
|
Tema |
Informação |
|---|---|
|
Evento |
Feira Internacional do Café Conilon (FICC 2026) |
|
Local |
São Mateus, Espírito Santo |
|
Data |
8 a 10 de outubro de 2026 |
|
Cooperativas participantes |
Cooabriel, Nater Coop e Cafesul |
|
Participação do ES na produção brasileira de conilon |
Cerca de 70% |
|
Propriedades produtoras |
Mais de 49 mil |
|
Área cultivada |
Mais de 258 mil hectares |
|
Produção estimada |
Superior a 14 milhões de sacas |
|
Principais desafios |
Qualidade, tecnologia, mão de obra, logística e acesso a mercados |
Principal conclusão do painel: para aumentar a renda dos produtores, o Espírito Santo precisa combinar sua capacidade de produção com qualidade, eficiência logística e estratégias comerciais que ampliem o valor do café conilon.

Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se