O uso de inteligência artificial na fiscalização de trânsito avança no Brasil e começa a mudar a forma como infrações comuns — e altamente perigosas — são identificadas nas rodovias. Radares equipados com IA já estão sendo utilizados para flagrar motoristas usando o celular ao volante e conduzindo veículos sem cinto de segurança, práticas que figuram entre as principais causas de acidentes graves no país.
A tecnologia foi apresentada em reportagem exibida pelo programa Fantástico, da TV Globo, e já opera em rodovias concedidas, com resultados considerados expressivos por especialistas em segurança viária. A iniciativa surge em um contexto descrito por técnicos como uma “epidemia da distração”, impulsionada pelo uso constante de smartphones durante a condução.
Como funciona a tecnologia
Diferentemente dos radares tradicionais, voltados quase exclusivamente ao controle de velocidade, os novos equipamentos utilizam câmeras de altíssima resolução associadas a algoritmos de visão computacional. As imagens são captadas em tempo real, mesmo com veículos em alta velocidade — podendo chegar a até 300 km/h — e sob diferentes condições de luminosidade, inclusive à noite.
A inteligência artificial é treinada a partir de grandes volumes de dados e aprende a reconhecer padrões específicos, como a ausência do cinto de segurança no corpo do motorista, a posição das mãos indicando o uso do celular e movimentos da cabeça incompatíveis com a atenção plena à direção.
Segundo técnicos envolvidos na operação, o sistema não aplica multas automaticamente. As imagens sinalizadas pela IA passam, obrigatoriamente, por validação humana antes de qualquer autuação.
“O papel do agente é confirmar se, de fato, houve a infração e se não há erro na análise da inteligência artificial”, explicou o inspetor da Polícia Rodoviária Federal Fábio Rocha de Souza.
Distração ao volante como fator de risco
Especialistas alertam que o uso do celular durante a condução representa hoje um dos maiores riscos no trânsito. O problema vai além de atender chamadas: digitar mensagens ou interagir com aplicativos provoca distrações manuais, visuais e cognitivas simultâneas.
De acordo com a Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), a 80 km/h, o motorista percorre cerca de 100 metros em poucos segundos — distância suficiente para que uma simples olhada no celular resulte em colisões graves ou fatais.
“O motorista passa a dirigir praticamente às cegas”, resume o presidente da entidade, Antonio Meira.
Resultados já observados
Em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, uma das primeiras regiões a adotar o sistema, foram registradas mais de 20 mil infrações entre julho e novembro de 2025. Desse total, quase 17 mil estavam relacionadas ao não uso do cinto de segurança e mais de mil ao uso do celular ao volante.
Segundo dados da concessionária responsável pela rodovia, após a implantação dos radares inteligentes, houve redução de cerca de 30% no número de acidentes.
“As pessoas percebem que podem ser flagradas e isso muda o comportamento no trânsito”, afirmou Ana Caetano, gerente de operações da concessionária.
Multas e respaldo legal
A adoção da inteligência artificial não altera as regras do Código de Trânsito Brasileiro (CTB). As infrações continuam sendo classificadas conforme a legislação vigente:
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Uso de celular ao volante: infração gravíssima, com multa e pontos na CNH;
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Falta do cinto de segurança: infração grave, também sujeita a penalidades.
Os registros seguem os mesmos trâmites administrativos das demais fiscalizações eletrônicas, com respaldo do Conselho Nacional de Trânsito (Contran).
Tecnologia como aliada
Apesar de críticas e desconfiança por parte de alguns motoristas, especialistas defendem que o objetivo da tecnologia não é ampliar a punição, mas reduzir mortes e feridos nas estradas.
A tendência, segundo analistas, é que sistemas semelhantes se tornem cada vez mais comuns, integrando políticas públicas de mobilidade e segurança viária. No Espírito Santo, por exemplo, municípios já utilizam inteligência artificial em câmeras urbanas e semáforos inteligentes, embora sem foco direto em autuação automática.
No âmbito estadual, o Programa Cerco Inteligente também emprega IA para monitoramento de tráfego e segurança pública, com leitura de placas e análise de fluxo veicular.
Um novo cenário para o motorista
Com a expansão dos radares inteligentes, comportamentos antes difíceis de fiscalizar passam a ser facilmente identificáveis. A fiscalização deixa de depender apenas de blitz ou da presença física constante de agentes, tornando-se mais contínua e precisa.
Mais do que evitar multas, a mudança impõe uma revisão de hábitos. Agora, além da velocidade, o radar também observa atitudes.
📌 O que você precisa saber
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O quê: Radares com inteligência artificial para fiscalizar trânsito
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Infrações flagradas: Uso de celular ao volante e falta de cinto de segurança
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Como funciona: Câmeras de alta resolução + IA + validação humana
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Impacto: Redução de acidentes e aumento da fiscalização
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Situação legal: Multas seguem o Código de Trânsito Brasileiro

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