Aprender a ler e escrever é uma das etapas mais importantes da infância. Mas, para algumas crianças, reconhecer palavras, relacionar letras aos sons e desenvolver fluência na leitura pode ser um desafio que persiste mesmo com ensino adequado e acompanhamento escolar.
Essas dificuldades podem estar relacionadas à dislexia, um transtorno específico de aprendizagem associado ao neurodesenvolvimento que afeta principalmente a precisão e a fluência da leitura, além de poder comprometer a escrita.
Segundo Luciana Brites, psicopedagoga, mestra em Distúrbios do Desenvolvimento e CEO do Instituto NeuroSaber, os primeiros sinais podem aparecer antes mesmo da alfabetização, especialmente por meio de dificuldades no desenvolvimento da linguagem.
Entretanto, nem toda criança que demora a aprender a ler tem dislexia. A identificação exige uma avaliação cuidadosa, que considere o histórico de desenvolvimento, as oportunidades de aprendizagem e outros fatores capazes de explicar as dificuldades.
Quais são os principais sinais da dislexia?
As manifestações variam de uma criança para outra e podem mudar conforme a idade e a etapa escolar.
Na educação infantil, algumas dificuldades de linguagem e de percepção dos sons das palavras podem chamar a atenção. Durante a alfabetização, os sinais tendem a ficar mais evidentes.
Entre os aspectos que pais e professores devem observar estão:
-
Dificuldade persistente para relacionar letras e sons, reconhecer palavras e desenvolver fluência na leitura.
-
Leitura muito lenta ou trabalhosa em comparação com o esperado para a etapa de escolarização.
-
Dificuldade para escrever palavras corretamente, mesmo após ensino e prática adequados.
-
Esforço excessivo em atividades que envolvem leitura e escrita.
-
Dificuldade para compreender textos quando grande parte da atenção está concentrada em decodificar as palavras.
Um sinal isolado não confirma o transtorno. O que merece atenção é a persistência das dificuldades, especialmente quando a criança recebe oportunidades adequadas de aprendizagem e não apresenta o progresso esperado.
Em que idade a dislexia pode ser identificada?
De acordo com Luciana Brites, a dislexia costuma ser diagnosticada após o início do processo de alfabetização, quando é possível avaliar com maior precisão o desenvolvimento da leitura e da escrita.
As dificuldades podem se tornar particularmente evidentes por volta dos oito ou nove anos, quando a criança já passou por etapas importantes da escolarização.
Isso não significa, porém, que seja necessário esperar até essa idade para procurar ajuda.
Quando há sinais persistentes de dificuldade na linguagem ou na aprendizagem inicial, a família e a escola podem buscar orientação especializada antes da confirmação diagnóstica.
O acompanhamento antecipado permite identificar necessidades educacionais e desenvolver estratégias de apoio sem aguardar o agravamento das dificuldades.
Dislexia não significa falta de inteligência
Uma das questões mais importantes é compreender que a dislexia não deve ser confundida com deficiência intelectual, desinteresse ou falta de esforço.
Uma criança pode apresentar boas habilidades de raciocínio, criatividade e compreensão oral e, ainda assim, encontrar dificuldades importantes para aprender a ler.
Segundo a especialista, a avaliação deve investigar se as dificuldades persistem apesar de condições adequadas de ensino e considerar possíveis explicações alternativas.
Entre os fatores que precisam ser analisados estão a qualidade da alfabetização, o desenvolvimento cognitivo, as condições emocionais e a presença de outras dificuldades ou transtornos.
Também é possível que a dislexia coexista com outras condições, razão pela qual a avaliação não deve se limitar a uma única característica do desempenho escolar.
Dificuldades podem afetar a autoestima e a convivência
Os efeitos da dislexia não ficam restritos às notas ou às atividades realizadas em sala de aula.
Quando uma criança encontra dificuldades constantes para acompanhar a leitura dos colegas, pode começar a evitar tarefas, sentir vergonha de participar das aulas ou desenvolver uma percepção negativa sobre a própria capacidade.
Esse cenário pode favorecer frustração, insegurança e sofrimento emocional.
A maneira como adultos e colegas reagem às dificuldades também influencia a experiência escolar.
Comparações, cobranças excessivas e interpretações equivocadas sobre o esforço da criança podem aumentar o desconforto e dificultar sua participação nas atividades.
Por isso, o suporte precisa considerar tanto a aprendizagem quanto o bem-estar emocional.
Como a família e a escola podem ajudar?
O acompanhamento de crianças com dificuldades persistentes de leitura e escrita exige comunicação entre responsáveis, professores e profissionais especializados.
A psicopedagogia e outras áreas envolvidas na avaliação da aprendizagem podem contribuir para compreender as dificuldades e orientar intervenções.
No ambiente escolar, estratégias de ensino estruturadas, especialmente aquelas que trabalham explicitamente as relações entre letras e sons, podem ajudar no desenvolvimento das habilidades de leitura.
Também podem ser necessárias adaptações pedagógicas, considerando as características e necessidades de cada estudante.
A família, por sua vez, tem papel importante ao acompanhar o desenvolvimento, acolher as dificuldades e manter contato com a escola.
O objetivo não é eliminar as exigências da aprendizagem, mas oferecer condições adequadas para que a criança desenvolva suas habilidades sem ser definida pelas dificuldades que apresenta.
Avaliação especializada é fundamental
A dislexia não pode ser diagnosticada apenas pela observação de erros de leitura ou escrita.
A identificação envolve uma avaliação especializada, que pode reunir profissionais de diferentes áreas, conforme as necessidades da criança.
É importante investigar o histórico de desenvolvimento, as habilidades de linguagem, o desempenho escolar e as oportunidades de ensino recebidas.
Com a identificação das dificuldades, torna-se possível planejar intervenções individualizadas e acompanhar a evolução da aprendizagem.
A dislexia pode acompanhar a pessoa ao longo da vida, mas o apoio educacional adequado contribui para o desenvolvimento de estratégias de leitura, escrita e aprendizagem, além de reduzir os impactos emocionais e acadêmicos.
O que você precisa saber
O que é dislexia? Um transtorno específico de aprendizagem que afeta principalmente o desenvolvimento da leitura, podendo também comprometer a escrita.
Principais sinais: dificuldades persistentes para reconhecer palavras, relacionar letras e sons, ler com fluência e escrever corretamente.
Quando observar? Desde os primeiros sinais de dificuldades de linguagem e, especialmente, durante a alfabetização.
Toda dificuldade de leitura é dislexia? Não. Outros fatores, incluindo oportunidades insuficientes de ensino, precisam ser avaliados.
Afeta a inteligência? A dislexia não é sinônimo de deficiência intelectual.
Pode causar sofrimento emocional? Sim. Frustração, insegurança e baixa autoestima podem surgir quando as dificuldades não são compreendidas e acolhidas.
O que fazer? Conversar com a escola e procurar avaliação especializada diante de dificuldades persistentes.
Fonte: Luciana Brites, psicopedagoga, mestra em Distúrbios do Desenvolvimento e CEO do Instituto NeuroSaber.
Mais informações:
institutoneurosaber.com.br.

Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se