Após quase uma década de espera, a família de Rayane Luiza Berger ouviu nesta quarta-feira (21) a sentença que encerra um dos crimes mais chocantes da história recente de Santa Maria de Jetibá, na região Serrana do Espírito Santo. O médico Celso Luís Ramos Sampaio foi condenado a 27 anos e nove meses de prisão pelo feminicídio da jovem pedagoga e ex-miss pomerana, assassinada aos 23 anos, em junho de 2015.
O julgamento, transferido para o Fórum Criminal de Vitória por decisão do Tribunal de Justiça do Estado (TJES), ocorreu em meio a forte comoção. O júri popular reconheceu que o réu cometeu homicídio qualificado por motivo fútil, mediante recurso que dificultou a defesa da vítima e em contexto de violência doméstica — o que caracteriza feminicídio.
A decisão também determinou o cumprimento imediato da pena em regime fechado, o bloqueio de bens e contas bancárias do condenado e a indenização de R$ 500 mil à família de Rayane por danos morais.
Premeditação e encenação
Rayane foi encontrada morta dentro de um carro submerso em um rio, na zona rural de Santa Maria de Jetibá, no dia 7 de junho de 2015. Inicialmente tratado como um acidente de trânsito, o caso passou a ser investigado como homicídio quando laudos periciais e depoimentos indicaram manipulação da cena do crime.
Segundo o Ministério Público do Espírito Santo (MPES), Celso teria dopado a companheira com medicamentos de uso controlado e a agredido com um objeto contundente, causando ferimentos letais na nuca. Em seguida, ele teria colocado o corpo no carro e forjado um acidente, lançando o veículo na água. Detalhes técnicos, como a ausência de marcas de frenagem e o não acionamento dos airbags, reforçaram a tese de simulação.
As investigações também revelaram que o réu já cumpria pena por outro homicídio, cometido contra um colega de profissão. O histórico de comportamento violento e o relacionamento conturbado com Rayane foram considerados cruciais para a condenação.
Julgamento em Vitória e impacto social
O júri, que durou cerca de nove horas, foi marcado por forte emoção e atenção da mídia local. O desaforamento — transferência do julgamento de Santa Maria de Jetibá para Vitória — foi concedido após a defesa alegar risco à segurança do réu e imparcialidade do júri popular na cidade onde o crime ocorreu e gerou ampla comoção.
Durante a audiência, Celso acompanhou o julgamento por videoconferência a partir de sua residência na capital. Orientado por seus advogados, respondeu apenas às perguntas dos jurados e da defesa, recusando-se a falar ao juiz e ao MPES.
Justiça e ferida aberta
A condenação representa um marco simbólico para os familiares da vítima, que há anos lutam por justiça. Rayane era considerada uma jovem promissora, engajada em causas sociais e reconhecida por sua representatividade cultural como miss pomerana. Sua morte brutal abalou não apenas a cidade natal, mas todo o Espírito Santo.
A mãe da vítima, em entrevistas concedidas anteriormente, chegou a declarar que “arrancaram um pedaço de mim”, num lamento que ressoou ao longo de todo o processo.
Consequências profissionais
Além da condenação penal, o caso será encaminhado ao Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo (CRM-ES), que poderá avaliar a cassação do registro profissional de Celso Sampaio, diante da gravidade dos fatos.
A sentença também reacende o debate sobre a violência de gênero e o papel das instituições na responsabilização de agressores que ocupam posições de prestígio social, como é o caso de profissionais da saúde.
Reflexão sobre feminicídio
O feminicídio de Rayane Berger expõe mais uma vez a urgência de políticas públicas efetivas no combate à violência contra a mulher. Em um país onde uma mulher é morta a cada 6 horas por razões de gênero, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a condenação de Celso é uma vitória judicial — mas que não apaga a dor nem devolve a vida perdida.
A Revista Conexão segue comprometida em acompanhar desdobramentos judiciais e sociais do caso, como a tramitação de eventuais recursos e decisões sobre a cassação profissional do réu.
📍 Se você sofre ou conhece alguém em situação de violência, procure ajuda.
Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher. Atendimento gratuito e sigiloso, 24 horas por dia.
