Brasil vê salto nas mortes com motocicletas e reacende debate sobre segurança no transporte sobre duas rodas
O trânsito brasileiro voltou a acender o sinal vermelho em 2023. Dados inéditos do Atlas da Violência 2025, divulgados nesta segunda-feira (12), mostram que a taxa de mortes por acidentes com motocicletas cresceu 12,5% em um ano, rompendo uma tendência de estabilidade que se mantinha desde 2020. A escalada acontece num momento em que o país discute, em várias capitais, a regulamentação do transporte de passageiros por moto.
Segundo o levantamento, foram 6,3 óbitos por 100 mil habitantes em 2023 — contra 5,6 registrados de forma estável nos três anos anteriores. No total, quase 13,5 mil pessoas morreram em acidentes com motocicletas no ano passado, número que corresponde a 38,6% de todas as mortes no trânsito brasileiro.
A pesquisa é conduzida pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), e, pela primeira vez, inclui um panorama específico sobre a violência no trânsito. Os dados foram consolidados a partir de registros do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, além de informações do IBGE.
Ao todo, o país registrou 34,9 mil mortes no trânsito em 2023 — um crescimento de 2,9% em relação ao ano anterior (33,9 mil). Ainda que a taxa geral tenha caído ao longo da última década (de 21,2 mortes por 100 mil habitantes em 2013 para 16,2 em 2023), o recorte das motocicletas vai na contramão: cresceu de 6 para 6,3 no mesmo período, com tendência de alta desde 2019.
O aumento é ainda mais expressivo quando se observam algumas regiões específicas. Em sete estados, os acidentes com motos representaram mais da metade das mortes no trânsito em 2023:
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Piauí: 69,4%
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Ceará: 59,5%
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Alagoas: 58,4%
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Sergipe: 57,8%
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Amazonas: 57,3%
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Pernambuco: 54,4%
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Maranhão: 52,2%
Na outra ponta, as menores proporções foram registradas no Rio de Janeiro (21,4%) e no Amapá (24,1%). Em termos absolutos, os estados com maiores taxas de mortes por acidentes de moto foram Piauí (21 por 100 mil habitantes), Tocantins (16,9) e Mato Grosso (14,7).
“O crescimento dessas mortes está diretamente ligado à expansão da frota de motocicletas, especialmente nas regiões mais pobres do país”, afirma o pesquisador do Ipea Carlos Henrique Carvalho. “A moto se tornou o meio de transporte mais acessível, com custo operacional reduzido, mas que impõe um risco altíssimo aos usuários”, observa.
Segundo ele, a discussão sobre o uso comercial de motocicletas para transporte de passageiros deveria ser tratada como questão urgente de saúde pública. “Na década de 2000, as mortes de motociclistas representavam 15% do total de óbitos no trânsito. Em 2010, esse número já se aproximava de 35%. Hoje, quase quatro em cada dez mortos no trânsito estavam sobre duas rodas”, explica.
O pesquisador ainda alerta: “A motocicleta não oferece nenhuma proteção estrutural ao condutor. Em casos de colisão ou queda, a probabilidade de morte é muito maior. Por isso, é um veículo altamente questionável para o transporte de passageiros.”
O debate sobre regulamentação do serviço já chegou à Justiça. Em São Paulo, por exemplo, a prefeitura é contra a legalização do mototáxi, que vem sendo defendido por aplicativos de transporte e parte dos usuários como alternativa mais rápida e barata.
Enquanto isso, o país convive com o aumento das tragédias. A motocicleta, que simboliza mobilidade para milhões, segue também como um dos maiores vetores de morte nas ruas e estradas do Brasil.
