Ao som dos tambores do caxambu e dos cantos que atravessam gerações, o quilombo Monte Alegre, em Cachoeiro de Itapemirim, voltou a se transformar em um grande território de memória, cultura e resistência durante a 138ª edição do Raiar da Liberdade, realizada no último sábado (16).
Mais do que uma celebração das raízes afro-brasileiras, o evento reafirma anualmente a luta do povo negro e a preservação das tradições culturais do Sul do Espírito Santo. A programação reuniu centenas de visitantes e representantes de manifestações do patrimônio imaterial capixaba, sob a condução da mestra de caxambu Maria Laurinda Adão, referência histórica da cultura popular na região.
Debate sobre racismo marcou programação
Um dos momentos centrais da edição deste ano foi o debate com o tema “13 de maio, abolição inacabada: racismo estrutural e religioso no Brasil”. O encontro reuniu nomes como a deputada estadual Camila Valadão, o promotor de Justiça Wagner Eduardo Vasconcellos, o historiador do Iphan Filipe Oliveira da Silva e a vereadora de Vitória Ana Paula Silva da Rocha. A mediação foi feita pela professora e escritora Luciene Carla Francelino.
Segundo Luciene Carla, discutir o 13 de maio dentro de um território quilombola reforça a necessidade de refletir sobre permanências históricas do racismo e sobre a ausência de reparação à população negra após a abolição da escravatura.
Cultura popular e tradição comunitária
A programação também contou com missa afro celebrada pela Pastoral Afro da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, apresentações de folia de reis, capoeira, jongo, charola de São Sebastião, boi pintadinho e grupos de caxambu. A tradicional feijoada comunitária, preparada pelos próprios moradores do quilombo, também integrou os festejos.
A organização é conduzida pelo grupo de caxambu Santa Cruz, criado dentro da própria comunidade de Monte Alegre e reconhecido nacionalmente como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Iphan. O grupo também possui reconhecimento como Ponto de Cultura e Ponto de Memória.
A mestra Maria Laurinda destacou a importância da participação dos grupos culturais e do público presente para manter viva a tradição do Raiar da Liberdade.
Título de Patrimônio Imaterial fortalece reconhecimento
A edição deste ano também ganhou significado especial por ser uma das primeiras após o reconhecimento oficial do Raiar da Liberdade como Patrimônio Cultural Imaterial do Espírito Santo, título concedido em 2024.
O reconhecimento foi entregue às mestras Maria Laurinda, Adevalmira, Neuza, Geralda e Zeli, simbolizando a valorização da cultura quilombola e das tradições afro-capixabas.
Outro anúncio importante veio da escola de samba Unidos da Piedade, que confirmou o Raiar da Liberdade como tema de seu desfile no Carnaval de Vitória de 2027.
Evento teve apoio cultural e recursos da LICC
A festa foi realizada com recursos da Lei de Incentivo à Cultura Capixaba (LICC), por meio da Secretaria da Cultura do Espírito Santo (Secult), e contou com patrocínio da Antônio Autopeças.
O Raiar da Liberdade também integrou as ações do Pontão de Cultura Associação de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial Cachoeirense, projeto contemplado pela Lei Cultura Viva.
O que você precisa saber
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Evento: 138º Raiar da Liberdade
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Local: Quilombo Monte Alegre, em Cachoeiro de Itapemirim
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Destaques: Caxambu, missa afro, folia de reis, capoeira e debate sobre racismo estrutural
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Reconhecimento: Festa foi declarada Patrimônio Cultural Imaterial do Espírito Santo em 2024
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Participação: Centenas de visitantes e grupos culturais do Sul do ES
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Organização: Grupo de Caxambu Santa Cruz
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Carnaval 2027: Unidos da Piedade terá o Raiar da Liberdade como enredo
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Fomento: Recursos da LICC e apoio da Secult

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