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Terça-feira, 16 de Dezembro 2025

Educação

Águas que contam histórias: alunos levam alerta ambiental à Câmara de Vargem Alta

Projeto da Escola Pedro Milanezi vira exemplo de educação ambiental e leva manifesto por saneamento e preservação dos rios ao Legislativo

Conexão ES Redação
Por Conexão ES Redação
Águas que contam histórias: alunos levam alerta ambiental à Câmara de Vargem Alta
Alunos da EMEB Pedro Milanezi levaram ciência e cobrança à Câmara de Vargem Alta: apresentaram o projeto “Águas que Contam Histórias”. Crédito: CMVA
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VARGEM ALTA (ES) — O plenário da Câmara Municipal de Vargem Alta viveu, na tarde de terça-feira (25), uma cena pouco comum: alunos do 9º ano, pranchetas e  dados em mãos, explicando a vereadores como funciona a análise de água de rios, o que é coliforme fecal, por que biodigestores precisam ser bem instalados e quais são os impactos do esgoto sem tratamento sobre a bacia do rio Fruteiras.

A visita fez parte da culminância do projeto “Águas que Contam Histórias”, desenvolvido na EMEB Pedro Milanezi sob coordenação das professoras Gélia Cabral e Naí, com apoio do diretor Flávio Ferreira Barbosa. A iniciativa já havia recebido destaque estadual, com reportagem na TV Gazeta, e conquistado o prêmio municipal “Professor em Foco”, mas, para a escola, o objetivo da noite ia além do reconhecimento: era fazer os estudantes ocuparem a tribuna e apresentarem um manifesto ambiental aos parlamentares.

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“Eles são os protagonistas. A ideia sempre foi que viessem aqui, conhecessem a Casa de Leis e apresentassem o que pesquisaram”, resumiu o diretor Flávio durante a sessão.

Jovens de Vargem Alta ocuparam a tribuna da Câmara para falar de rios, esgoto, reflorestamento e futuro. Crédito: CMVA
Jovens de Vargem Alta ocuparam a tribuna da Câmara para falar de rios, esgoto, reflorestamento e futuro. Crédito: CMVA

Da sala de aula ao rio: ciência na prática

O projeto nasceu de uma provocação simples: entender como as comunidades se relacionam com a água e como essa relação mudou ao longo do tempo. A partir daí, as turmas começaram a entrevistar moradores mais antigos, levantar memórias sobre rios e córregos, registrar o “antes e depois” em fotos e participar de ações de monitoramento em parceria com o programa “Observando os Rios”, do SOS Mata Atlântica, e com a Reserva Águia Branca.

Na tribuna, a aluna Júlia explicou que o grupo foi orientado a pesquisar a “herança cultural” dos rios próximos às comunidades. Os estudantes compararam relatos antigos com a situação atual, incluindo o uso de agrotóxicos, mudanças na qualidade da água e na paisagem.

Outro grupo detalhou o trabalho de campo: análise de turbidez, temperatura, pH, oxigênio dissolvido, nitrato, fosfato, presença de esgoto e coliformes fecais. “Quanto mais escuro o resultado, pior está a qualidade da água”, explicou uma das alunas ao projetar na tela exemplos dos testes realizados no rio Fruteiras, que passa ao lado da escola.

As atividades incluíram ainda visitas técnicas à Reserva Águia Branca, à BRK, em Cachoeiro de Itapemirim, e à Estação de Tratamento de Esgoto de Vila Esperança. Nessas idas a campo, os estudantes puderam observar de perto o funcionamento do tratamento de água e esgoto e comparar o que viram com a realidade dos córregos que cortam o município.

apresentaram o projeto “Águas que Contam Histórias” e entregaram um manifesto pedindo melhorias no esgoto, proteção de nascentes e educação ambiental nas escolas. Crédito: CMVA
Juventude falando de futuro e de água na política. Crédito: CMVA

Esgoto, nascentes e biodigestores: o que os adolescentes pedem

A apresentação culminou na leitura de um documento batizado de “Manifesto por um Município Mais Sustentável”, preparado pelos próprios adolescentes. No texto, eles relacionam preservação ambiental, saúde pública e qualidade de vida, e fazem três pedidos centrais ao Legislativo:

  1. Melhorias no tratamento de esgoto
    Os estudantes solicitam ampliação e modernização das estações de tratamento, redução do despejo de esgoto in natura em rios e córregos, fiscalização da origem do esgoto nas residências e incentivo à adoção de fossas sépticas e biodigestores nas áreas rurais.

    Um dos pontos que mais chamou atenção foi o relato sobre a estação de tratamento de esgoto de Vila Esperança. Segundo os alunos, a unidade foi projetada para atender cerca de 150 residências, mas o bairro já ultrapassa esse número com folga. “Se a estação não dá conta de tudo, como fica a situação do rio?”, questionou uma aluna ao microfone.

  2. Força-tarefa para reflorestamento de nascentes e topos de morro
    O manifesto defende a organização de mutirões, em parceria com agricultores e proprietários rurais, para plantio de árvores em áreas de nascente e encostas. A ideia é proteger mananciais, reduzir erosão, melhorar a infiltração de água no solo e contribuir para o equilíbrio climático.

    Parte das ações já vem sendo incentivada por lideranças ambientais locais, como o morador Adenilson “AD”, citado pelos alunos e homenageado pela escola. Ele concorre ao Prêmio Biguá representando o Sul do Espírito Santo e, posteriormente, a um prêmio nacional em Belém do Pará.

  3. Educação ambiental permanente nas escolas
    Os estudantes pedem que temas ambientais sejam incorporados de forma contínua ao currículo, com projetos práticos — como hortas, coleta seletiva e reciclagem —, formação de professores e realização de palestras e campanhas educativas.

    “Acreditamos que a educação ambiental é fundamental para formar cidadãos conscientes, críticos e comprometidos”, diz um trecho do manifesto lido em plenário.

apresentaram o projeto “Águas que Contam Histórias” e entregaram um manifesto pedindo melhorias no esgoto, proteção de nascentes e educação ambiental nas escolas. Crédito: CMVA
Os alunos apresentaram o projeto “Águas que Contam Histórias” e entregaram um manifesto pedindo melhorias no esgoto, proteção de nascentes e educação ambiental nas escolas. Crédito: CMVA

Crônicas, livros e teatro: a água como narrativa

Mais do que dados, o projeto também resultou em produção cultural. Para registrar o percurso, as turmas confeccionaram crônicas e pequenos livros ilustrados, nos quais recontam, em linguagem acessível, a história da água nas comunidades e explicam, passo a passo, o funcionamento do saneamento básico.

Na reta final, os alunos encenaram um teatro voltado principalmente às turmas do 6º ano, que devem assumir a continuidade do projeto nos próximos anos. A peça aborda a poluição dos rios, a dificuldade de recuperação das nascentes e a responsabilidade coletiva sobre o lixo e o esgoto despejados na natureza.

“Era importante que os mais novos entendessem o que fizemos e por que isso precisa continuar depois que o nosso grupo sair da escola”, explicou uma das alunas durante a sessão.

Vereadores prometem atenção e citam desafios

Após a apresentação, vereadores usaram a palavra para elogiar o trabalho da escola e reconhecer a importância de ouvir os adolescentes sobre temas ambientais.

Parlamentares citaram demandas já encaminhadas a órgãos estaduais para implantação de biodigestores em comunidades rurais e melhoria de estações de tratamento, além de reconhecerem problemas pontuais, como o impacto do esgoto de Vila Esperança sobre o rio Fruteiras. Houve também quem chamasse atenção para a necessidade de campanhas permanentes de conscientização contra o descarte de lixo diretamente nos cursos d’água.

“É emocionante ver a juventude preocupada com o meio ambiente. Projetos assim mostram para onde a escola precisa caminhar”, resumiu um dos vereadores.

Representando a Secretaria Municipal de Educação, o subsecretário Samuel destacou que experiências como a da Pedro Milanezi ampliam o papel da escola na formação cidadã. “Parece simples, mas o alcance é enorme. Eles aprendem ciência, história, política pública e, ao mesmo tempo, cobram soluções”, disse.

Educação, política e futuro da água

Ao final da sessão, os estudantes entregaram o manifesto em mãos ao presidente da Câmara, com a expectativa de que os pontos levantados se transformem em ações e projetos de lei.

Para as professoras Gélia e Naí, o valor pedagógico da noite não se resume ao conteúdo ambiental. “Eles entenderam que cidadão também fala em microfone, ocupa a tribuna, apresenta dados, questiona e propõe. Isso é educação em sentido amplo”, avaliou a equipe.

Enquanto o grupo deixava o plenário, a sensação era de que as “águas que contam histórias” ganharam um novo capítulo: o de uma geração que decidiu olhar para rios, nascentes e estações de tratamento não como cenário distante, mas como parte essencial do futuro da própria cidade.

📌 O que você precisa saber

  • Alunos do 9º ano da EMEB Pedro Milanezi apresentaram na Câmara de Vargem Alta o projeto “Águas que Contam Histórias”.

  • O trabalho inclui entrevistas com moradores, análise da qualidade da água do rio Fruteiras, visitas técnicas e produção de crônicas, livros e teatro sobre saneamento.

  • Os estudantes leram um manifesto ambiental cobrando melhorias no tratamento de esgoto, reflorestamento de nascentes e políticas permanentes de educação ambiental.

  • A escola integra o programa “Observando os Rios”, do SOS Mata Atlântica, com apoio da Reserva Águia Branca e de órgãos de saneamento.

  • Vereadores elogiaram a iniciativa e reconheceram desafios, como a sobrecarga da estação de esgoto de Vila Esperança e os impactos sobre o rio Fruteiras.

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