O planejamento de uma fazenda de pecuária não começa necessariamente pelo curral. Antes de decidir onde colocar cercas, corredores, porteiras, cochos e bebedouros, há outro elemento a ser observado: como o gado se comporta e se movimenta pela propriedade.
No caso do Nelore, predominante na pecuária de corte brasileira, a resposta dos animais a estímulos externos pode interferir diretamente no desenho e no dimensionamento das estruturas de manejo. Medo, pressão excessiva, ruídos ou situações desconhecidas podem provocar mudanças rápidas de direção e tentativas de fuga.
“Para quem trabalha com pecuária de corte, entender esses movimentos é parte importante do planejamento da infraestrutura da propriedade”, explica Vanessa Amorim Teixeira, médica-veterinária, doutora em Zootecnia e analista de mercado agro da Belgo Arames.
Segundo dados da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB) citados pela especialista, aproximadamente 80% do rebanho bovino de corte do país — cerca de 152 milhões de animais — é formado por Nelore ou mestiços da raça.
O que faz o gado pressionar uma cerca?
Adaptado às condições tropicais, o Nelore apresenta capacidade de deslocamento e percepção dos estímulos ao redor. A raça também possui temperamento ativo, embora apresente docilidade, segundo informações reunidas no livro “ACNB, 70 anos a serviço da raça Nelore”.
O comportamento, porém, não é idêntico entre todos os animais. Há diferenças entre indivíduos e linhagens, enquanto o melhoramento genético também vem selecionando características relacionadas ao manejo.
Na rotina da fazenda, situações aparentemente comuns podem alterar o comportamento de um lote.
Falta de água, alimento ou sombra, separação entre vacas e bezerros, introdução de novos animais, fêmeas no cio e disputas entre machos estão entre os fatores que podem aumentar a movimentação e, consequentemente, a pressão exercida sobre determinadas estruturas.
Há ainda estímulos externos. Cães, máquinas, pessoas, ruídos intensos, temporais, incêndios, predadores e animais silvestres podem desencadear respostas de fuga.
“Áreas de grande movimentação, cantos, porteiras, corredores, locais próximos ao curral, pontos de alimentação e dessedentação exigem atenção específica”, explica Vanessa.
Touros, vacas acompanhadas de bezerros e animais recém-chegados também podem demandar cuidados adicionais no planejamento do manejo.
Nem toda área da fazenda recebe a mesma pressão
É justamente aí que o comportamento animal começa a interferir na infraestrutura. Uma cerca instalada em uma área de pouca circulação não está necessariamente submetida às mesmas condições daquela localizada na entrada do curral ou em um corredor utilizado frequentemente pelo rebanho.
Por isso, o projeto precisa levar em consideração a categoria dos animais, a finalidade de cada espaço, as características do terreno e o sistema de produção.
Resistência, elasticidade, visibilidade e tensionamento correto dos fios estão entre os aspectos citados pela especialista. O dimensionamento de mourões, esticadores, cantos e porteiras também interfere na segurança da estrutura.
“Vãos excessivos, arames frouxos, passagens junto ao solo e trechos frágeis podem favorecer tentativas de ultrapassagem e aumentar o risco de acidentes”, afirma Vanessa.
A lógica vale também para a manutenção. Uma estrutura adequada quando instalada pode perder eficiência à medida que surgem fios frouxos, mourões comprometidos ou outros pontos frágeis.
Infraestrutura acompanha o manejo
O princípio é relativamente simples: em vez de esperar que o animal se adapte a qualquer configuração da propriedade, o produtor pode planejar a estrutura considerando como o rebanho efetivamente se movimenta.
Isso inclui observar os trajetos utilizados com maior frequência, os pontos de concentração dos animais e os locais nos quais mudanças de direção ou situações de estresse são mais comuns.
A Belgo Arames, empresa da qual Vanessa faz parte, fabrica diferentes tipos de materiais para cercamento rural, incluindo soluções para cercas convencionais e elétricas. Mas, independentemente do material empregado, a especialista ressalta que a estrutura funciona como parte de um conjunto.
“Para o produtor de Nelore, a combinação entre projeto adequado, materiais de qualidade, instalação correta, manutenção preventiva e manejo racional ajuda a reduzir riscos de fuga, acidentes e danos à infraestrutura”, afirma.
Na prática, observar o comportamento do gado antes de definir o desenho da propriedade pode evitar que um problema percebido somente quando o animal chega à cerca tenha começado muito antes — no próprio planejamento da fazenda.
O que você precisa saber
Raça: Nelore
Participação no rebanho de corte: cerca de 80%, incluindo animais Nelore e mestiços, segundo dado da ACNB citado pela especialista
Estimativa: aproximadamente 152 milhões de animais
Pontos críticos: corredores, porteiras, cantos, currais, cochos e bebedouros
Fatores de atenção: medo, ruídos, falta de água ou alimento, formação de novos lotes, separação de vacas e bezerros e presença de animais desconhecidos
Planejamento: deve considerar comportamento do rebanho, categoria animal, terreno e sistema produtivo
Cuidados: instalação correta, dimensionamento das estruturas, tensionamento dos fios e manutenção preventiva

Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se