Tráfico, luxo e corrupção: operação expõe rede de lavagem de dinheiro ligada ao crime organizado no Espírito Santo
Uma força-tarefa composta por mais de 100 policiais civis deflagrou, nesta quarta-feira (14), uma operação de grande porte que revela uma intrincada rede de lavagem de dinheiro supostamente a serviço do crime organizado no Espírito Santo. Batizada de Operação Baest, a ação investiga empresários de diversos setores, uma advogada e até um coronel da reserva da Polícia Militar por envolvimento direto no financiamento e sustentação do Primeiro Comando de Vitória (PCV), facção que atua no tráfico de drogas no estado.
Ao todo, 20 pessoas estão na mira da Justiça. A operação cumpriu 25 mandados de busca e apreensão, além de ordens de sequestro de bens e bloqueio de contas bancárias que totalizam cerca de R$ 104 milhões em ativos. Os mandados foram cumpridos não apenas no Espírito Santo — nas cidades de Vitória, Serra, Vila Velha e Guarapari — mas também no Paraná, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais.
Entre os bens apreendidos estão 12 veículos de luxo, cinco armas de fogo, nove imóveis, além de joias, obras de arte e criptomoedas — indícios de um esquema altamente sofisticado de movimentação e ocultação de valores ilícitos.
Smurfing e rotas do tráfico
De acordo com o delegado Alan Andrade, responsável pela investigação, a principal técnica utilizada pelos suspeitos para lavar dinheiro é conhecida como smurfing — prática em que grandes quantias em dinheiro são fragmentadas em valores menores, distribuídas entre diversas contas e, posteriormente, centralizadas novamente em contas destino, dificultando o rastreamento pelos órgãos de controle financeiro.
Além disso, os envolvidos também utilizavam o mercado de compra e venda de veículos e imóveis para legalizar o capital do tráfico. Parte do dinheiro, segundo a polícia, era encaminhada para regiões de fronteira do Brasil, onde era usada para adquirir armas e entorpecentes que abasteciam a rede criminosa capixaba.
Nomes de influência e setores variados
Os empresários investigados atuam em setores diversos, como o comércio de automóveis, imóveis e materiais de construção. A participação de uma advogada e de um oficial da reserva da PM do Espírito Santo no esquema chamou a atenção dos investigadores, indicando que a organização criminosa buscava respaldo jurídico e institucional para blindar suas operações.
A Ordem dos Advogados do Brasil no Espírito Santo (OAB-ES) e a Polícia Militar foram procuradas para comentar o envolvimento dos respectivos membros na investigação, mas até a publicação desta reportagem não haviam se pronunciado.
Impacto financeiro e continuidade da investigação
A Operação Baest é resultado de uma ação conjunta entre a Polícia Civil do Espírito Santo e o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Segundo as autoridades, o nome da operação faz referência ao conceito nórdico de “força implacável” — em alusão à ofensiva do Estado contra as estruturas financeiras do crime organizado.
“Trata-se de uma investigação complexa e em curso. Os resultados preliminares demonstram um volume expressivo de patrimônio obtido com dinheiro do tráfico. Nossa prioridade agora é aprofundar os laços entre os investigados e os líderes da facção”, afirmou um porta-voz da polícia.
As investigações seguem em sigilo, e novas etapas da operação não estão descartadas.
