VITÓRIA (ES) — Trocar a lenha pelo gás natural na secagem do café pode aumentar o rendimento e reduzir a presença de características indesejáveis na bebida. É o que indicam resultados preliminares de um projeto-piloto desenvolvido no Espírito Santo e apresentado durante o Vitória Coffee Summit 2026, no Cais das Artes, em Vitória.
A pesquisa está sendo realizada na Fazenda Chapadão, em Linhares, e compara o desempenho de secadores abastecidos com gás natural e equipamentos convencionais alimentados a lenha.
Entre maio e agosto, aproximadamente 9.400 sacas de café passaram pelos testes. Foram monitorados fatores como temperatura, consumo de combustível, tempo de secagem e grau de maturação dos grãos, além de análises laboratoriais e sensoriais.
Os resultados ainda são preliminares e estão relacionados às condições específicas do experimento. A pesquisa tem duração prevista de 12 meses e investimento superior a R$ 1 milhão.
O projeto é desenvolvido pela ES Gás em parceria com o Centro do Comércio de Café de Vitória (CCCV), Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), JDE Peet's e Base 27, com aprovação e acompanhamento da Agência de Regulação de Serviços Públicos do Espírito Santo (ARSP).
Teste aponta rendimento 4,15% maior
Um dos dados apresentados no encontro está relacionado ao rendimento obtido após a secagem.
Nos testes realizados com temperaturas entre 120°C e 140°C, o sistema a gás registrou rendimento equivalente a 39,73 sacas de café seco, ante 38,15 sacas no processo a lenha, operado entre 150°C e 250°C.
A diferença corresponde a um ganho potencial de 4,15% nas condições avaliadas.
Em uma simulação para uma produção de 10 mil sacas, esse percentual representaria 415 sacas adicionais. A projeção, porém, não significa que o mesmo resultado será necessariamente reproduzido em outras propriedades, equipamentos ou condições de produção.
Os ensaios também apontaram que temperaturas entre 120°C e 160°C tiveram os menores níveis de consumo de gás. Nessa faixa, o tempo de secagem variou entre 13 e 17 horas, com consumo médio informado de 13,76 metros cúbicos de gás por saca.
Outra estimativa apresentada pelo projeto indica que um controle mais preciso da temperatura poderia evitar perdas de até 1,6 saca por batelada.
Notas de fumaça caem nas amostras
A qualidade da bebida é outra frente analisada.
Nas avaliações realizadas pela JDE Peet's, a incidência de notas de fumaça passou de 27% nas amostras comparativas para 1% entre aquelas submetidas à secagem com gás natural.
Segundo os dados apresentados, 93% das amostras secas com gás atingiram perfil sensorial classificado como “Neutro” ou superior. Outros 51% chegaram às classificações Neutro+ e Neutro++.
As análises sugerem que o maior controle da temperatura durante a secagem pode reduzir interferências no perfil sensorial do café.
Aristides Tabosa, diretor de Operações de Café Verde da JDE Peet's, afirmou durante a apresentação que os resultados indicam uma relação entre controle térmico e qualidade da bebida, fator que pode influenciar também a valorização comercial do produto.
Experimento compara seis secadores
A estrutura utilizada na pesquisa reúne seis equipamentos: três abastecidos com gás natural e três com lenha.
No sistema convencional, as fornalhas precisam receber lenha continuamente durante a operação. O processo envolve transporte, armazenamento e abastecimento manual do combustível.
No modelo experimental, o gás natural é transportado por carreta até a propriedade.
Além dos resultados sobre rendimento e qualidade, o estudo pretende avaliar aspectos operacionais e identificar em quais condições a substituição da lenha pelo gás pode ser tecnicamente e economicamente viável.
O produtor Eduardo Bortolini, da Fazenda Chapadão, afirmou que a adoção da tecnologia exige investimento inicial maior e que a possibilidade de expansão dependerá da evolução dos estudos.
Pesquisa pode chegar a outras regiões produtoras
Uma das próximas etapas previstas é ampliar os estudos para municípios próximos a Linhares e São Mateus.
Também está em discussão uma parceria com a Secretaria de Estado da Agricultura (Seag) para mapear secadores de café localizados nas proximidades da rede de distribuição da ES Gás.
A localização é um ponto importante para a viabilidade do modelo, uma vez que disponibilidade, transporte e custo do combustível interferem diretamente na decisão do produtor.
O diretor técnico e comercial da ES Gás, Fábio Lancelotti, participou da apresentação dos resultados ao lado de Bortolini, Tabosa e do secretário-executivo do CCCV, Sandro Rodrigues.
Rodrigues ressaltou que a pesquisa ainda está em andamento.
“O CCCV sempre fez parte dos momentos que revolucionaram o mercado do café no Espírito Santo. Hoje é mais um desses momentos”, afirmou.
Tecnologia mira etapa decisiva do pós-colheita
A secagem é uma das etapas que interferem diretamente na conservação e na qualidade final do café. Temperatura, tempo e regularidade do processo podem influenciar tanto as perdas físicas quanto as características sensoriais do produto.
É nesse ponto que o projeto tenta avaliar se o maior controle proporcionado pelo gás natural compensa os custos e as mudanças necessárias na estrutura das propriedades.
Os primeiros resultados apontam possibilidades, mas a conclusão sobre a viabilidade da tecnologia dependerá da continuidade dos testes, da análise econômica e da capacidade de reproduzir os resultados em diferentes condições de produção.
Caso os ganhos sejam confirmados em escala maior, o uso do gás poderá representar uma alternativa adicional para produtores de conilon em uma etapa estratégica do pós-colheita capixaba.
Vitória Coffee Summit
Os resultados foram apresentados no Vitória Coffee Summit 2026, realizado nos dias 20 e 21 de agosto, no Cais das Artes, em Vitória.
Promovido pelo Centro do Comércio de Café de Vitória, o encontro reuniu representantes brasileiros e estrangeiros para discutir produção, comércio, tecnologia e as perspectivas do mercado cafeeiro.
A edição também marcou os 80 anos do CCCV.
O que você precisa saber
☕ Pesquisa: uso de gás natural na secagem do café conilon
📍 Local dos testes: Fazenda Chapadão, em Linhares
📊 Volume avaliado: cerca de 9.400 sacas entre maio e agosto
🔥 Comparação: três secadores a gás natural e três abastecidos com lenha
📈 Rendimento: testes indicaram ganho potencial de 4,15% nas condições avaliadas
👃 Notas de fumaça: incidência caiu de 27% para 1% nas amostras analisadas pela JDE Peet's
💰 Investimento: pouco mais de R$ 1 milhão
📅 Duração prevista: 12 meses
🔬 Situação: resultados são preliminares e ainda dependem da conclusão da pesquisa
🤝 Participantes: ES Gás, CCCV, Ifes, JDE Peet's e Base 27, com aprovação e acompanhamento da ARSP

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