Lá se vão 35 anos desde que o Telescópio Espacial Hubble foi colocado em órbita. Em 24 de abril de 1990, o equipamento desenvolvido pela NASA foi lançado a bordo do ônibus espacial Discovery, mudando para sempre a forma como a humanidade observa o universo. De lá para cá, o Hubble foi responsável por registros históricos, descobertas surpreendentes e avanços que reformularam a astrofísica moderna.
Apesar das três décadas de serviço e das especulações sobre sua "aposentadoria", o telescópio segue em funcionamento. No entanto, os desafios são cada vez maiores: giroscópios envelhecidos, risco de reentrada na atmosfera terrestre e cortes de orçamento pesam sobre o futuro da missão.
Entre reparos e resistência: uma história de manutenção e superação
Ao longo de sua trajetória, o Hubble precisou de cinco missões de manutenção realizadas por astronautas da NASA. Problemas como a aberração esférica no espelho primário, falhas em giroscópios e sensores ultravioleta exigiram ajustes técnicos e substituições de componentes. Em 2024, cientistas atualizaram o sistema para que ele funcione com apenas um giroscópio, otimizando sua longevidade.
Ainda assim, fatores como o arrasto atmosférico, que lentamente puxa o equipamento para uma órbita mais baixa, indicam que sua jornada pode se encerrar por volta de 2036, quando deve ser direcionado para uma reentrada controlada na atmosfera terrestre.
James Webb: concorrente ou aliado?
Longe de ser um substituto direto, o Telescópio Espacial James Webb (JWST), lançado em 2021, é visto por especialistas como complementar ao Hubble. Enquanto o Hubble capta imagens no espectro da luz visível e ultravioleta, o Webb é especializado na luz infravermelha, permitindo observar estruturas frias e distantes do universo.
Segundo o cientista Kurt Retherford, "o Hubble é imbatível em capturar a luz visível e UV, enquanto o Webb observa em infravermelho com precisão térmica. Ambos trabalham juntos para expandir nossa compreensão do cosmos".
Cortes orçamentários e ameaças institucionais
Em janeiro de 2025, a NASA indicou reduções no orçamento anual do Hubble para US$ 87,8 milhões, cerca de 20% a menos que o previsto. A medida já vem sendo implementada com restrições em divulgação e operações não essenciais. Um documento do governo norte-americano ainda sugere cortes de até 50% em programas como astrofísica e ciência planetária.
Legado imensurável: das luas de Plutão à energia escura
O Hubble foi essencial para confirmar a existência de buracos negros supermassivos, registrar a primeira imagem da colisão de galáxias (como as Antennae) e mapear nebulosas com precisão inédita. Também contribuiu para a detecção das luas de Plutão, detalhou tempestades em Saturno e ajudou a comprovar que a expansão do universo está se acelerando, o que levou ao conceito de energia escura.
O marco de sua influência pode ser resumido na imagem captada em 1995: o Hubble Deep Field. Ao apontar para um ponto aparentemente vazio do espaço, o telescópio revelou mais de 3 mil galáxias, permitindo vislumbrar o universo quando ele tinha apenas 800 milhões de anos.
Especificações impressionantes
Com 13,2 metros de comprimento e 12,2 toneladas, o Hubble é do tamanho de um ônibus. Opera com dois painéis solares, funciona no espectro visível, infravermelho e ultravioleta, e consegue detectar objetos 10 bilhões de vezes mais fracos que o limiar da visão humana. Seu espelho primário de 2,4 metros capta imagens com resolução angular de 0,05 segundos de arco — equivalente a ver uma moeda a 138 km de distância.
Um futuro incerto, mas com brilho até o fim
Com o olhar voltado para as estrelas e os pés firmados na ciência, o Hubble segue sendo um dos instrumentos mais relevantes da história da astronomia. Mesmo com incertezas sobre sua manutenção e financiamento, ele continua entregando dados valiosos e revelando ao mundo o esplendor do cosmos.
Seu fim pode estar próximo, mas seu legado está eternamente gravado nas imagens que nos ensinaram a ver o universo de forma mais profunda, ampla e humana.
