DIVINO DE SÃO LOURENÇO (ES) — Uma máquina de beneficiar café fabricada em 1953, que durante décadas esteve ligada ao trabalho no campo, passa a contar outra parte da história do Caparaó. A peça ocupa o centro da nova Sala de Memórias – Máquina do Tempo, que será inaugurada nesta sexta-feira (7), às 19h, no Armazém Multiverso Caparaó, em Patrimônio da Penha, distrito de Divino de São Lourenço.
Apelidado de “Museu do Depois do Amanhã”, o novo espaço reúne histórias de moradores, objetos, fotografias, documentos, sons e recursos interativos para estabelecer uma ligação entre o passado da região, as transformações do presente e as possibilidades para o futuro da vida no campo.
A inauguração integra o Festival de Inverno de Patrimônio da Penha, realizado nesta sexta e sábado (8), com programação cultural gratuita.
Memórias de mais de 50 moradores
A construção do acervo partiu principalmente da história oral. Mais de 50 moradores idosos da região compartilharam lembranças e experiências relacionadas à cafeicultura, rios, estradas, colheitas, festas, migrações, formas de trabalho e modos de vida.
Os relatos passam a integrar um acervo comunitário que continuará recebendo novas contribuições.
A proposta é preservar conhecimentos que, muitas vezes, atravessaram gerações pela oralidade e correm o risco de desaparecer com as mudanças sociais e econômicas no campo.
O projeto também busca relacionar esses saberes a questões contemporâneas, especialmente em uma região cercada pela Mata Atlântica e marcada pela atividade rural. Tecnologias sociais, práticas ancestrais e alternativas sustentáveis entram nessa discussão sobre as formas de viver e produzir no território.
Máquina de café passa a contar histórias
Um dos principais elementos da exposição carrega parte dessa transformação. A máquina de beneficiamento de café de 1953 foi desmontada, preservada e posteriormente remontada pela equipe do Armazém Multiverso, com a participação de carpinteiros tradicionais e moradores.
Em vez de retornar à atividade para a qual foi construída, a máquina ganhou uma função cultural.
Recursos digitais e analógicos, projeções, sons, fotografias, documentos e objetos foram incorporados à experiência. Ao percorrer a instalação, o visitante poderá conhecer diferentes períodos e histórias da região.
A presença da antiga máquina também estabelece uma ligação com a própria sede do centro cultural. O prédio atual nasceu da recuperação de um antigo armazém beneficiador de café que permaneceu desativado e sem manutenção por mais de quatro décadas em Santa Marta, nas proximidades.
A estrutura foi desmontada e reconstruída em um terreno de 400 metros quadrados cedido à Associação Permacultural Jacutinga do Caparaó, responsável pela gestão do Armazém.
Festival começa nesta sexta-feira
A abertura da Sala de Memórias será acompanhada por visitas guiadas. A programação da noite terá ainda jam session, projeções e participação dos DJs Tupicaína e Ian. Comidas e bebidas serão comercializadas no local.
No sábado, as atividades começam às 10h, com o tradicional cortejo cultural pela rua principal de Patrimônio da Penha, passando pela feira realizada na praça da comunidade.
A partir das 14h, o Armazém recebe a Feira Multiverso, a Vivência Despoupa de Jussara e Bijuzada, a exposição dos processos desenvolvidos durante a Residência Artística e novas visitas à Sala de Memórias.
À noite, das 19h à meia-noite, haverá visitas guiadas, jam session, projeções e DJs.
Residência reuniu 14 artistas e pesquisadores
Parte do que será apresentado ao público começou a ser construída antes do festival. Desde 29 de julho, o Armazém recebe uma residência artística com 14 convidados entre artistas, pesquisadores, educadores e agentes culturais.
Durante o período foram realizadas oficinas, laboratórios de criação, rodas de conversa, exibições de filmes e atividades ao ar livre.
Participam Raya Rosa, Thiago Pindaíba, Ian do Carmo, Akin, Maria Limeira, Fabiola Melca, João Tupycaína, Niltinho, Vagna Araújo, Bruno Cabus, Abou Mourad, Kath Xapi Puri, Tais Lobo e Carla Mognhol. Os processos e trabalhos desenvolvidos durante a residência serão apresentados no Festival de Inverno.
Centro cultural nasceu dentro de antigo armazém
Criado em 2018, o Armazém Multiverso funciona como um centro cultural rural dedicado a atividades ligadas à arte, memória, educação, alimentação, cinema, juventude e questões ambientais.
Atualmente, o espaço possui salão, cafeteria, sala de cinema e área externa. Também recebe atividades do Lab Artes, que reúne 23 jovens bolsistas da região, além de sessões de cinema, yoga, cursos, oficinas, exposições, festivais e visitas de escolas.
O Armazém é reconhecido como Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura e pela Secretaria da Cultura do Espírito Santo e como Ponto de Memória pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).
O Festival de Inverno é realizado pelo Armazém Multiverso e pela Associação Permacultural Jacutinga do Caparaó, com recursos do Fundo de Cultura do Estado do Espírito Santo (Funcultura) e da Lei Aldir Blanc, por meio da Secult-ES e do Ministério da Cultura. A residência artística tem patrocínio da EDP por meio da Lei de Incentivo à Cultura Capixaba.
Serviço
Festival de Inverno de Patrimônio da Penha
Quando: sexta-feira (7) e sábado (8) de agosto de 2026
Inauguração da Sala de Memórias: sexta-feira (7), às 19h
Onde: Armazém Multiverso Caparaó, Patrimônio da Penha, Divino de São Lourenço (ES)
Participação: gratuita e aberta a todas as idades

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