Uma empresa de uma cidade pequena pode disputar um contrato público do outro lado do país sem mandar um representante até lá. Propostas, documentos e lances podem ser apresentados pela internet, na plataforma indicada pelo órgão responsável pela contratação.
Essa é uma das principais mudanças trazidas pelo avanço do pregão eletrônico nas compras públicas. Para micro e pequenas empresas, o modelo reduziu gastos que antes pesavam na decisão de concorrer: passagens, hospedagem e deslocamentos para acompanhar sessões presenciais.
A distância diminuiu. O cuidado para escolher uma licitação, não.
Consultada pela Revista Conexão, a advogada Dr.ª Anna Karolini Thomazini Conti, especialista em licitações e contratos administrativos, afirma que o ambiente digital ampliou o acesso às compras públicas, mas também colocou empresas de diferentes regiões na mesma disputa.
"Hoje, uma empresa consegue acompanhar oportunidades muito além do município onde está instalada. Isso amplia o mercado, mas exige planejamento. Antes de participar, é preciso saber se o preço comporta os custos e se a empresa terá condições de cumprir o contrato", afirma.
Uma empresa local pode buscar clientes em outras regiões
No pregão eletrônico, o fornecedor acessa a plataforma indicada no edital, apresenta a proposta e acompanha a sessão pela internet. Quando começa a etapa competitiva, os lances também são enviados pelo sistema.
Na prática, a localização da empresa deixa de determinar onde ela pode procurar oportunidades.
Um negócio instalado no interior pode avaliar contratações promovidas por prefeituras de outras cidades, governos estaduais ou órgãos federais, desde que cumpra as regras da licitação e tenha condições de entregar o produto ou executar o serviço contratado.
Para empresas que dependem de poucos clientes privados ou atuam em mercados locais restritos, as compras públicas podem funcionar como mais um canal de vendas.
Viajar ficou menos necessário. Entregar continua custando
A redução das despesas para participar de uma licitação é uma das vantagens mais evidentes do modelo eletrônico.
Sem precisar enviar um representante a cada sessão, a empresa consegue acompanhar mais oportunidades com uma estrutura menor.
Mas existe uma diferença importante entre o custo de disputar e o custo de executar.
Uma empresa do Espírito Santo, por exemplo, pode encontrar uma licitação interessante em outro estado. Antes de entrar na disputa, terá de calcular frete, prazo de entrega, tributos, eventual assistência técnica e outras despesas decorrentes da distância.
Um contrato de valor elevado pode deixar de ser atraente quando esses custos entram na conta.
O primeiro passo é saber onde procurar
As licitações eletrônicas são realizadas nas plataformas utilizadas por cada órgão público.
Nas contratações do governo federal realizadas pelo sistema de compras da União, o Compras.gov.br concentra editais e procedimentos eletrônicos. Estados, municípios e outras entidades podem utilizar essa ou outras plataformas.
Por isso, o edital continua sendo a referência. É nele que a empresa encontra o endereço da disputa, as condições de participação, os prazos e os requisitos necessários para acessar o sistema.
No âmbito federal, o Sicaf (Sistema de Cadastramento Unificado de Fornecedores) reúne informações cadastrais utilizadas nas contratações em que o sistema é adotado.
Documentos não devem ser organizados na última hora
Encontrar uma licitação compatível com a atividade da empresa e descobrir que uma certidão está vencida ou que falta um documento pode significar perder a oportunidade.
A preparação começa antes da publicação do edital que a empresa pretende disputar.
Documentos societários, certidões fiscais e trabalhistas, informações econômico-financeiras e comprovações de capacidade técnica podem ser exigidos, conforme o objeto e as regras da contratação.
A lista varia de uma licitação para outra. Manter a documentação empresarial organizada facilita o processo, mas não substitui a conferência do edital.
Na hora dos lances, preço baixo tem limite
A etapa de lances é o momento mais dinâmico do pregão eletrônico.
Depois da apresentação das propostas iniciais e da abertura da sessão, os participantes podem reduzir seus valores conforme as regras definidas para aquela disputa.
A velocidade do processo pode levar o empresário a concentrar a atenção na posição ocupada na tela e perder de vista a própria margem.
É um erro que pode sair caro.
"Antes da sessão, a empresa precisa saber até qual valor consegue chegar. Não adianta vencer a licitação e descobrir depois que o preço não paga a operação", diz Anna Karolini.
Esse limite deve considerar o custo do produto ou serviço, impostos, funcionários, logística, despesas administrativas e a margem necessária para que o contrato seja viável.
O edital também define como será a disputa
Nem todo pregão eletrônico segue exatamente a mesma dinâmica de lances.
O edital informa o modo de disputa e as regras aplicáveis à sessão. Dependendo do procedimento adotado, podem existir etapas com lances sucessivos e momentos específicos para apresentação de propostas finais.
Conhecer essas regras com antecedência permite ao fornecedor definir sua estratégia e evita que decisões importantes sejam tomadas durante a sessão sem planejamento.
Mais oportunidades, mas também mais concorrentes
A digitalização funciona nos dois sentidos.
Se uma pequena empresa ganhou condições de disputar contratos fora de sua região, fornecedores de outras cidades também passaram a ter acesso às licitações realizadas no seu município.
O mercado ficou maior, e a concorrência também.
Isso muda a lógica para quem pretende vender ao poder público de forma recorrente. A estratégia deixa de ser simplesmente participar do maior número possível de pregões e passa por escolher onde a empresa realmente consegue competir.
Preço, distância, capacidade de entrega, prazo, documentação e condições do contrato precisam ser avaliados em conjunto.
O pregão eletrônico eliminou boa parte das barreiras físicas que separavam pequenos fornecedores das compras públicas. Transformar essa facilidade em faturamento depende de uma decisão essencialmente empresarial: saber quais disputas valem a pena.
O que você precisa saber
- O pregão eletrônico permite que propostas, documentos e lances sejam apresentados pela internet.
- A empresa pode buscar oportunidades fora da cidade ou do estado onde está instalada.
- O modelo reduz despesas com viagens, hospedagem e deslocamentos para acompanhar sessões.
- A distância até o órgão contratante deve entrar no cálculo de frete, prazo e logística.
- O edital informa a plataforma da disputa e os requisitos para participação.
- O Compras.gov.br é utilizado nas contratações eletrônicas do governo federal realizadas pelo sistema de compras da União.
- Documentos e certidões devem ser mantidos atualizados, mas as exigências precisam ser conferidas em cada edital.
- Antes da sessão, a empresa deve calcular o menor preço que consegue oferecer sem comprometer a margem.
- A ampliação do acesso também aumentou a concorrência entre fornecedores de diferentes regiões.

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