VARGEM ALTA (ES) — Em 1997, uma jovem professora entrava em sua primeira sala de aula sem imaginar que ali começaria uma jornada de quase três décadas. O cenário não era simples: estradas de chão, longas viagens até a sede de Rio Novo do Sul, escolas pequenas em comunidades rurais, turmas heterogêneas e poucos recursos pedagógicos. Nada disso, porém, afastou Rosania Peterle do caminho que escolheu — e que agora se transforma. Mas nada disso afastou Rosania Peterle, que se despede da educação pública como uma das professoras mais queridas e respeitadas do distrito de Jaciguá.
“Quando olho para trás, lembro das lutas, das dificuldades de acesso, das escolas simples, das turmas de jovens e adultos à noite. Tudo isso me ensinou a não desistir”, conta Rosania, em entrevista exclusiva.
Sua aposentadoria foi anunciada no jantar realizado no CEMEI Vale da Lua, no dia 31 de outubro, em um encontro com colaboradores. O momento marcou oficialmente o encerramento de uma trajetória reconhecida por sua competência, sensibilidade e profundo compromisso com a educação pública de Vargem Alta.
Da roça às primeiras letras: a professora que nunca perdeu a crença na educação
Rosania lecionou em diferentes comunidades — Virgínia Nova, Ribeirão, Vila Alegre, Paraíso, Volta Redonda e, finalmente, na sede do distrito deJaciguá — onde construiu sua identidade docente e afetiva.
“Aprendi a respeitar o ser humano em sua totalidade. A ser resiliente diante dos desafios e a dar o meu melhor diante de qualquer público”, afirma.
Cada localidade lhe ofereceu um retrato do Brasil profundo: escolas com poucos recursos, comunidades distantes, realidades diversas que exigiam da professora uma combinação rara de rigor, sensibilidade e vocação.
Do mimeógrafo ao celular: a transformação — e o peso — da escola contemporânea
Rosania testemunhou profundas mudanças na educação. Se, no início, faltavam ferramentas, hoje sobram demandas.
“Antes eu ensinava conteúdos. Hoje, o professor virou pai, mãe, psicólogo. A escola precisa resgatar valores, lidar com comportamentos, dar atenção que muitas vezes falta em casa”, relata.
Com ironia leve e precisão realista, ela sintetiza:
“Eu estudei para ser professora.”
Tecnologia: aliada e ameaça
A educadora reconhece o poder da tecnologia, mas alerta para seus riscos:
“A tecnologia não substitui o ser humano, a imaginação, o livro. O excesso está trazendo a Síndrome do Pensamento Acelerado, e isso já aparece nas escolas.”
Para ela, o desafio central do século é equilibrar telas e vivências, informação e sensibilidade.
As lembranças que ficam: cartas, sorrisos e primeiras letras
Entre tantas memórias, uma permanece viva: uma carta escrita em várias folhas de caderno e entregue por uma aluna com uma frase simples e definitiva — “Eu te amo.”
“É gratificante ver a criança aprender as primeiras letras, ler o próprio nome, escrever. É ali que a missão se concretiza”, diz Rosania.
A despedida: saudade, gratidão e um futuro com música
Rosania se aposenta com a serenidade de quem cumpriu seu papel.
“É dever cumprido. Sou grata aos alunos, às famílias, às comunidades por onde passei. Gratidão define minha vida”, resume.
Agora, abre espaço para um sonho antigo:
“Quero me matricular em uma escola de música para continuar meus estudos de violão. Sem sonhos não há vida.”
O legado
Quando perguntada sobre o que deixa para trás, Rosania responde sem hesitar:
“A minha didática de ensino.”
E pede que seus alunos guardem ao menos uma imagem:
“Que lembrem do meu sorriso.”
Jaciguá, sua segunda casa
“Jaciguá é o Vale da Lua, onde dediquei o maior tempo da minha carreira. Agradeço a essa comunidade por me acolher com tanto amor. Tenho enorme apreço por esse povo.”
Rosania encerra com devoção e gratidão:
“Agradeço a Deus por tudo. Aos meus pais, aos meus professores, aos colegas de trabalho — e ao meu colega de escola, Cláudio Cézar Pazetto, por esta oportunidade.”
📌 Rosania, em uma frase
A educadora resume sua trajetória com o versículo que guiou sua caminhada:
“Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé.” — 2 Timóteo 4,7
📌 O que você precisa saber
Rosania Peterle encerrou oficialmente sua carreira no dia 31 de outubro, durante um jantar com colaboradores do CEMEI Vale da Lua.
Foram 28 anos dedicados ao magistério, com atuação em Virgínia Nova, Ribeirão, Vila Alegre, Paraíso, Volta Redonda e Jaciguá.
A educadora presenciou a transição da escola rural dos anos 1990 para os desafios contemporâneos — da era do mimeógrafo ao impacto da tecnologia.
Rosania destacou que o professor hoje assume múltiplos papéis, além do ensino, o que torna a rotina mais complexa.
Entre suas lembranças marcantes está uma carta de uma aluna com a inscrição “Eu te amo”, guardada até hoje.
Após a aposentadoria, ela pretende estudar música e dar continuidade ao violão, sonho que sempre acompanhou sua trajetória.
Sua marca registrada, segundo ela mesma: a didática e o sorriso que acompanharam gerações de estudantes de Jaciguá.
