Durante décadas, o café conilon foi associado principalmente à indústria, às misturas e ao café solúvel. Agora, esse cenário começa a mudar. Produtores capixabas vêm investindo em qualidade, pós-colheita, torra e identidade de origem, e o resultado já aparece nas cafeterias.
O movimento ainda é gradual, mas produtores e empresários do setor relatam crescimento na procura por conilons especiais, principalmente para espresso e venda em grãos.
Em Vitória e Linhares, cafeterias já começam a incluir a espécie de forma intencional no cardápio, abrindo espaço para um consumidor que passa a conhecer o conilon não apenas como matéria-prima industrial, mas como café de origem e perfil sensorial próprio.
Interesse cresce entre cafeterias
A produtora rural e mestre de torra Kissia Dal’Orto, da Fazenda Flor de Lis, em Linhares, afirma que a demanda vem aumentando.
Segundo ela, conilons especiais apresentados a cafeterias têm recebido resposta positiva do público, especialmente quando utilizados em espresso.
Kissia também participa da Pro-Conilon, associação que reúne produtores de diferentes municípios, como Linhares, Jaguaré e Rio Bananal, e atua justamente na aproximação entre quem produz e quem vende o café ao consumidor final.
Esse elo entre campo e cafeteria é uma das etapas centrais para consolidar o conilon especial em um mercado historicamente dominado pelo arábica.
Cafeterias começam a tratar conilon como escolha, não como substituto
Em Vitória, o Quinto Aroma está entre os espaços que decidiram incluir o conilon especial de forma deliberada.
O sócio da cafeteria, Wagner Carmo, conta que a proposta sempre foi oferecer diferentes experiências de café ao público e, por isso, o conilon teria espaço garantido tanto para consumo quanto para blends e venda em grãos.
A mudança de percepção também passou pela experiência pessoal do empresário. Criado no Caparaó, região fortemente ligada ao arábica, Wagner admite que durante anos enxergava o conilon como um café mais duro e voltado à indústria. Isso mudou depois de provar um lote de melhor qualidade.
Hoje, ele busca ampliar a variedade disponível na cafeteria.
Qualidade passa a ser questão de perfil sensorial
A principal mudança talvez esteja justamente na forma como especialistas e consumidores passam a comparar as duas espécies.
Em vez de tratar arábica e conilon como uma relação de “melhor” e “pior”, o mercado começa a destacar diferenças de perfil sensorial.
O conilon especial pode apresentar mais corpo, notas achocolatadas e maior teor de cafeína. Já determinados arábicas podem entregar perfis mais florais, frutados, melados ou delicados.
Na prática, isso amplia as possibilidades para o consumidor e transforma a escolha em uma questão de preferência.
Profissionalização começa no campo
O avanço do conilon especial também está ligado a uma mudança na produção.
Produtores têm investido em colheita seletiva, manejo, fermentação, secagem, beneficiamento e torra, etapas que interferem diretamente no resultado final da bebida.
Esse processo aproxima o conilon da trajetória que o arábica percorreu nas últimas décadas para consolidar o segmento de cafés especiais.
A diferença agora é que o Espírito Santo parte de uma posição privilegiada: o Estado já possui enorme escala produtiva, tradição agrícola e conhecimento técnico acumulado.
Espírito Santo lidera produção nacional
O Espírito Santo é o maior produtor de conilon do Brasil.
Segundo os dados apresentados, o Estado concentra mais de 49 mil propriedades ligadas à cultura e responde por aproximadamente 67% da produção nacional da espécie.
Durante muito tempo, a maior parte desse volume teve como destino a indústria de café solúvel, blends e mercados de commodity.
O que começa a surgir agora é uma nova camada de valor: conilon vendido com origem, marca, torra específica e identidade própria.
Mais valor pode ficar dentro do Estado
Se essa tendência ganhar escala, os efeitos econômicos podem ir além das cafeterias.
Quando o café deixa de ser vendido apenas como grão verde e passa a chegar ao consumidor final como produto especial, novas etapas da cadeia permanecem no território: torrefação, embalagem, marca, varejo, experiência gastronômica e turismo.
Isso significa mais valor agregado e novas oportunidades para produtores, cafeterias, torrefadores e pequenos negócios.
O que você precisa saber
O que está mudando?
O conilon especial começa a ganhar mais espaço em cafeterias capixabas.
Onde já aparece?
Há relatos de presença crescente em cafeterias de Vitória e Linhares.
Quem está puxando esse movimento?
Produtores, associações como a Pro-Conilon, mestres de torra e cafeterias que passaram a trabalhar o produto com foco em qualidade.
Qual a diferença para o arábica?
Cada espécie tem perfil sensorial próprio. A discussão deixa de ser apenas sobre qualidade e passa a considerar preferência de sabor.
Qual o peso do Espírito Santo?
O Estado é o maior produtor de conilon do Brasil e responde por cerca de 67% da produção nacional, segundo os dados apresentados.

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