A escassez de trabalhadores rurais tem provocado impactos cada vez mais profundos no agronegócio capixaba. Em São Mateus, maior produtor brasileiro de pimenta-rosa, a falta de mão de obra levou uma propriedade a perder cerca de 70% da produção na safra de 2026, evidenciando um dos principais desafios enfrentados atualmente pelo campo: o chamado "apagão de mão de obra".
Na Fazenda Lagoa Seca, a queda na produção não foi causada por fatores climáticos, doenças ou retração do mercado. O principal obstáculo foi a dificuldade para encontrar trabalhadores suficientes para realizar a colheita, que ainda depende quase exclusivamente do trabalho manual.
Cultura altamente especializada enfrenta novo desafio
A pimenta-rosa é considerada uma cultura de alto valor agregado e exige cuidados específicos durante todas as etapas de produção. Diferentemente de outras lavouras, ainda não existe uma máquina comercial capaz de realizar a colheita de forma totalmente eficiente.
Diante desse cenário, a produtora e gestora da Fazenda Lagoa Seca, Ana Paula Martin Machado, afirma que a inovação tecnológica será indispensável para garantir a continuidade da atividade.
Segundo ela, a oferta de trabalhadores diminui a cada ano, tornando a mecanização uma necessidade para manter a competitividade da produção.
Tecnologia própria não evitou perdas
Na tentativa de reduzir a dependência da mão de obra, a propriedade desenvolveu um equipamento próprio para auxiliar no processo de colheita da pimenta-rosa, tornando parte da operação semimecanizada.
Apesar da iniciativa, o recurso não foi suficiente para impedir a perda da maior parte da safra deste ano.
Agora, a fazenda realiza novos testes para adaptar colheitadeiras utilizadas na cafeicultura à realidade da pimenta-rosa, ajustando inclusive o manejo das plantas para permitir a entrada dos equipamentos.
A produtora também busca parcerias com empresas e instituições interessadas em desenvolver tecnologias específicas para essa cultura.
Produção capixaba conquistou mercado nacional
A Fazenda Lagoa Seca se tornou referência pela produção de pimenta-rosa cultivada sem defensivos agrícolas e sem herbicidas, adotando rígidos padrões de qualidade durante a colheita, secagem e beneficiamento.
Esse modelo de produção chamou a atenção da Natura, que acompanhou durante cinco anos todo o processo produtivo antes de estabelecer parceria comercial com a propriedade.
Atualmente, a pimenta-rosa produzida em São Mateus é utilizada em produtos da empresa que levam a especiaria em sua composição, substituindo inclusive matéria-prima anteriormente importada de Madagascar, país reconhecido internacionalmente pela produção da cultura.
Problema se estende a outras cadeias do agro
A dificuldade para contratar trabalhadores não atinge apenas a produção de pimenta-rosa.
Em diferentes regiões do Espírito Santo, produtores de café, tomate e outras culturas também enfrentam limitações semelhantes, o que tem acelerado investimentos em mecanização e novas tecnologias sempre que as características da lavoura permitem.
No caso da pimenta-rosa, entretanto, a ausência de soluções consolidadas torna o impacto ainda mais significativo, elevando o risco de perdas produtivas e comprometendo a competitividade do setor.
O que você precisa saber
• A Fazenda Lagoa Seca, em São Mateus, perdeu cerca de 70% da produção de pimenta-rosa em 2026 devido à falta de mão de obra.
• A colheita da pimenta-rosa ainda é predominantemente manual e não possui máquinas comerciais específicas para a atividade.
• A propriedade desenvolveu tecnologia própria e agora testa a adaptação de colheitadeiras de café para reduzir a dependência de trabalhadores.
• A pimenta produzida na fazenda abastece produtos da Natura após anos de acompanhamento e validação da qualidade do cultivo.
• A escassez de mão de obra também afeta outras cadeias do agronegócio capixaba e impulsiona a busca por soluções tecnológicas.

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