Uma simples escolha no prato pode influenciar diretamente a sua expectativa de vida saudável. Essa é a conclusão de um estudo inédito conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e a Universidade Técnica da Dinamarca. Publicada na revista científica International Journal of Environmental Research and Public Health, a pesquisa revela que o consumo contínuo de 115g de bolacha recheada – menos de um pacote – pode reduzir em até 40 minutos o tempo de vida saudável de uma pessoa.
Por outro lado, alimentos in natura como banana, feijão e peixe de água doce podem adicionar minutos preciosos a essa conta, promovendo longevidade com qualidade.
Minutos a mais ou a menos no relógio da saúde
A análise utilizou o Índice Nutricional de Saúde (HENI), um sistema que estima a expectativa de vida saudável com base no impacto de alimentos sobre doenças crônicas e incapacidades. O estudo analisou os 33 alimentos que mais contribuem para a ingestão energética dos brasileiros, considerando dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (INA 2017-2018), a Classificação Nova de Processamento de Alimentos e informações ambientais como emissão de CO₂ e consumo de água.
Os resultados são surpreendentes:
Alimentos que mais retiram minutos de vida saudável:
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Bolacha recheada: -39,69 min
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Carne suína: -36,09 min
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Margarina com/sem sal: -24,76 min
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Carne bovina: -21,86 min
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Biscoito salgado: -19,48 min
Alimentos que mais adicionam minutos à vida saudável:
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Peixe de água doce: +17,22 min
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Banana: +8,08 min
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Feijão: +6,53 min
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Suco de fruta natural: +5,69 min
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Arroz integral: +4,71 min
“O estudo não quer demonizar nenhum alimento isoladamente, mas mostrar os efeitos acumulados do consumo frequente e de longo prazo”, explicou uma das autoras. De acordo com os cientistas, o impacto é cumulativo, ou seja, comer bolacha recheada esporadicamente não tem efeito imediato, mas o hábito constante sim.
O peso da comida também no planeta
Além do impacto sobre a saúde, os pesquisadores avaliaram os efeitos ambientais dos alimentos, considerando emissões de gases de efeito estufa (CO₂eq) e consumo de água por porção.
A carne bovina, por exemplo, emite mais de 21 kg de CO₂ por porção, enquanto uma pizza de mussarela consome mais de 300 litros de água. Em contraste, a banana consome apenas 14,8 litros de água e emite 0,1 kg de CO₂.
A pesquisa aponta a necessidade urgente de integração entre políticas públicas de saúde, sustentabilidade e incentivo à agricultura familiar. Alimentos como feijão, mandioca, frutas e hortaliças, produzidos por pequenos agricultores, figuram entre os mais benéficos e sustentáveis.
Mais saúde e mais escolhas
Os pesquisadores defendem que os dados ajudem a orientar programas de alimentação escolar, rotulagem nutricional e campanhas públicas de incentivo ao consumo consciente. “A nossa alimentação afeta não só nossa saúde individual, mas também o futuro do planeta. E essa é uma escolha diária que fazemos, três vezes ao dia”, destacam.
Apesar de fatores como predisposição genética, prática de exercícios e estilo de vida não terem sido incluídos no cálculo, os autores reforçam que a alimentação continua sendo um dos pilares mais importantes da saúde pública.
