A pauta racial ganhou corpo, voz e espaço no Parlamento capixaba. Às vésperas do 20 de novembro, Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, a Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales) faz um balanço que confirma: a casa de leis tornou-se palco ativo da defesa dos direitos da população negra, seja por meio de projetos, audiências, homenagens, legislações ou debates que promovem memória, identidade, proteção e igualdade.
Nos últimos anos, parlamentares têm respondido a demandas históricas vindas de movimentos negros, quilombolas, associações culturais, comunidades de matriz africana e grupos educacionais — consolidando a Ales como uma aliada institucional na luta contra o racismo e na construção de uma sociedade mais justa.
Violência de gênero e raça: quando a vida das mulheres negras está em risco
A deputada Iriny Lopes (PT), autora da lei que institui a Semana Estadual de Enfrentamento à Violência Política de Gênero e Raça, lembra que a invisibilização e a violência recaem com força sobre mulheres negras.
“O racismo tenta calar as vozes negras, especialmente as das mulheres na política. Nossa lei homenageia Marielle Franco e afirma que o Espírito Santo não tolerará racismo e misoginia”, declarou Iriny.
A semana acontece anualmente de 8 a 14 de março, reforçando o combate direto à violência política e ao racismo institucional.
Representatividade importa: “este espaço não era desejado para nós”
A deputada Camila Valadão (Psol), única mulher negra da atual legislatura, tem sido uma das principais vozes na defesa da população negra dentro da Ales.
Em audiência sobre violência de gênero e raça, ela lembrou a luta pela existência e presença negra nos espaços de poder:
“O povo negro sobreviveu a capturas, açoites e projetos de morte. É nessa sociedade racista que espaços como o Parlamento nunca foram desejados para nós”.
Camila é articuladora de políticas, autora de leis culturais e organizadora das Jornadas Antirracistas, que têm fortalecido debates sobre educação, juventude, saúde, moradia e cultura afro-brasileira.
Organizações negras fortalecidas: utilidade pública que abre portas e muda realidades
O reconhecimento de associações como utilidade pública tem ampliado o acesso a recursos, projetos e editais.
Instituto Negro Sou (Linhares)
Conduzido pela professora Ana Paula Ricardo, o instituto atua com educação antirracista e defesa da Lei 10.639/2003.
“Construímos dignidade, autoestima e novos caminhos. Transformamos denúncia em consciência, e consciência em ação”, afirma.
Centro Cultural Patrimônio dos Pretos (Ecoporanga)
Presidido por Herlivaldo ‘Branco’ Gomes, promove capoeira, artesanato, música, dança e identidade.
“O título abre portas gigantes. Dá voz, oportunidade e fortalece nossa imagem perante a sociedade”, destaca Branco.
Cultura como resistência: leis que celebram raízes afro-capixabas
A Ales aprovou legislações que homenageiam e preservam tradições negras:
Dia do Trancista (6 de junho) – autoria de Camila Valadão.
Dia do Congo, Jongo, Folia dos Reis e Ticumbi (12 de dezembro) – iniciativa do ex-deputado Lucas Scaramussa.
Dia Estadual da Cultura Bantu – proposta do deputado Sérgio Meneguelli.
Cada reconhecimento fortalece manifestações ancestrais e reafirma o protagonismo cultural de comunidades negras.
Jornada Antirracista: “Empretecer a Ales”
Criada em 2023, a jornada se tornou uma das principais ações do Legislativo em defesa da pauta racial.
Com debates, rodas de conversa, manifestações culturais, feira afro, lançamentos de livros e atividades formativas, o evento prepara sua terceira edição, marcada para 28 de novembro, com foco em educação antirracista.
“Empretecer a Ales é colocar o povo negro no centro do debate. É transformar consciência em política pública”, resume Camila.
O que você precisa saber (POS BOX)
✊ A Ales ampliou ações, leis e debates voltados à defesa da população negra.
👩🏽⚖️ Lei institui a Semana Estadual de Enfrentamento à Violência de Gênero e Raça, em homenagem a Marielle Franco.
🖤 Camila Valadão atua como voz central da pauta antirracista no Parlamento.
🎓 Instituições negras reconhecidas como utilidade pública agora têm mais acesso a recursos e editais.
🎶 Leis valorizam tradições afro-capixabas como tranças, congo, jongo e cultura Bantu.
📚 Jornada Antirracista da Ales se fortalece como evento anual de formação e mobilização.
🌍 Agenda reforça compromisso do Espírito Santo com reparação histórica e combate ao racismo.
