O economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, gerou intenso debate ao publicar um artigo que responsabiliza diretamente o Banco Central (BC) pela instabilidade das contas públicas devido à manutenção de uma elevada taxa de juros. O especialista argumenta que a atual condução monetária, baseada em teorias que ele considera anacrônicas, é o principal motor do desequilíbrio fiscal que o país enfrenta.
Em seu texto, intitulado "Eu Acuso: Uma Proposta para Eliminar os Juros Absurdos", o ex-diretor do BC e ex-presidente do BNDES critica a narrativa predominante no mercado financeiro. Segundo o economista, há uma confusão deliberada entre o interesse dos rentistas e a verdadeira racionalidade econômica do país.
Lara Resende, que possui PhD pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), contesta a justificativa do Banco Central de que a Selic alta seria a única ferramenta eficaz para conter pressões inflacionárias e déficits primários. Ele pondera que, embora o Brasil apresente falhas na alocação de recursos, o déficit fiscal primário é, na verdade, um dos menores do mundo quando se isola o impacto do serviço da dívida.
O peso dos encargos financeiros
O diagnóstico do especialista é claro: a maior despesa do Estado brasileiro hoje é o pagamento de juros sobre a dívida pública. Enquanto a dívida bruta saltou de 71,7% do PIB em 2022 para cerca de 82,9% em 2026, o mercado pressiona por cortes drásticos em gastos sociais. Para o economista, essa estratégia é insustentável.
"O déficit nominal, puxado pelos juros, aproxima-se de 10% do PIB", alerta o autor. Ele defende que o equilíbrio das contas públicas não deve ser o único norteador da política econômica. A sugestão central de Lara Resende é a implementação de um novo regime que anuncie metas de inflação e de juros de forma conjunta, com horizontes de quatro a cinco anos.
Para viabilizar essa transição, o economista sugere que o Banco Central utilize suas reservas internacionais, superiores a US$ 350 bilhões, para evitar volatilidade cambial. O debate proposto por ele coloca em xeque o modelo convencional que pauta a atuação das autoridades monetárias, desafiando o consenso de que apenas o aperto monetário pode garantir a estabilidade econômica nacional.
