ESPÍRITO SANTO — Fazer mais exames nem sempre significa cuidar melhor da saúde. A orientação de especialistas é que o acompanhamento preventivo das mulheres considere idade, sintomas, histórico familiar e fatores individuais de risco, evitando procedimentos desnecessários sem comprometer o diagnóstico precoce de doenças.
Entre as mudanças recentes está a introdução do teste molecular para HPV como principal método de rastreamento do câncer do colo do útero no Sistema Único de Saúde (SUS). A tecnologia começou a ser implantada progressivamente no Brasil em 2025 e permite ampliar o intervalo entre exames quando o resultado é negativo e a paciente atende aos critérios estabelecidos.
Para o ginecologista Carlos Campagnaro, do Hospital São José e professor do Unesc, em Colatina, é importante distinguir a consulta médica periódica da necessidade de realizar exames todos os anos.
“A consulta ginecológica periódica continua sendo fundamental. Nela, avaliamos saúde sexual e reprodutiva, contracepção, ciclo menstrual, sintomas ginecológicos, menopausa e fatores de risco para diferentes doenças”, explica.
Segundo o médico, não existe uma lista única de exames indicada anualmente para todas as mulheres. A avaliação deve acompanhar as diferentes fases da vida e considerar as necessidades de cada paciente.
Teste de HPV muda prevenção do câncer do colo do útero
Durante décadas, o exame de Papanicolau foi a principal ferramenta de rastreamento do câncer do colo do útero. O procedimento identifica alterações nas células que podem indicar lesões precursoras da doença.
O teste molecular para HPV de alto risco, por sua vez, identifica o material genético de tipos do vírus associados ao desenvolvimento do câncer.
“Hoje, temos uma tecnologia mais sensível: o teste molecular para HPV de alto risco, que procura diretamente o material genético dos tipos de HPV relacionados ao câncer”, afirma Campagnaro.
De acordo com o especialista, a nova estratégia permite que mulheres com resultado negativo e sem outras condições de risco tenham um intervalo maior entre os exames, que pode chegar a cinco anos.
O Papanicolau, entretanto, continua sendo utilizado nos serviços onde o teste molecular ainda não está disponível e em situações específicas de acompanhamento.
O ginecologista também esclarece que receber um diagnóstico de HPV não significa ter câncer. A infecção é frequente e, na maioria dos casos, desaparece espontaneamente. O maior risco está relacionado à persistência de determinados tipos do vírus.
Mamografia exige atenção à idade e ao histórico familiar
O rastreamento do câncer de mama é outro ponto que exige avaliação individualizada.
O Ministério da Saúde considera a faixa dos 50 aos 74 anos prioritária para o rastreamento populacional, com mamografia a cada dois anos. Para mulheres entre 40 e 49 anos, a realização do exame pode ser discutida com o profissional de saúde, considerando benefícios e possíveis riscos.
Há diferenças entre as recomendações dos programas públicos e das sociedades médicas. A cirurgiã geral e mastologista Jeane Pissara Monteiro, do Hospital Santa Rita, por exemplo, defende a mamografia anual a partir dos 40 anos, conforme recomendações adotadas por entidades da especialidade.
Segundo a médica, o acompanhamento começa pela consulta, com avaliação dos antecedentes familiares, histórico clínico e exame físico das mamas.
Mulheres com maior risco de câncer de mama, especialmente aquelas com histórico familiar relevante ou mutações genéticas, podem precisar iniciar a investigação mais cedo e realizar exames complementares.
A ultrassonografia e a ressonância magnética podem ser indicadas em situações específicas, como alterações identificadas na mamografia, mamas densas ou risco elevado.
Ultrassom anual nem sempre é necessário
Outro alerta dos especialistas envolve a realização indiscriminada de ultrassonografias.
O ultrassom transvaginal é importante para investigar sangramentos anormais, dor pélvica, suspeita de miomas, cistos ovarianos e endometriose. Entretanto, não há indicação de que todas as mulheres sem sintomas precisem realizar o exame anualmente.
Segundo Campagnaro, a ultrassonografia transvaginal de rotina não demonstrou eficácia como método de rastreamento do câncer de ovário em mulheres com risco habitual.
O mesmo cuidado vale para a ultrassonografia das mamas, que não substitui a mamografia e deve ser solicitada conforme a necessidade clínica.
“O problema de utilizá-la indiscriminadamente em mulheres sem sintomas é encontrar alterações que provavelmente nunca causariam problemas, mas que podem levar a novos ultrassons, mamografias, ressonâncias e até biópsias”, explica.
Excesso de exames pode gerar ansiedade e procedimentos desnecessários
A identificação de alterações benignas, como pequenos cistos ou resultados laboratoriais discretamente fora dos valores de referência, pode desencadear uma sequência de investigações que nem sempre traz benefícios à paciente.
Além da ansiedade, o excesso de exames pode resultar em custos adicionais e intervenções evitáveis.
“Durante muito tempo criou-se a ideia de que um check-up melhor seria aquele que tivesse o maior número possível de exames. Hoje sabemos que não funciona assim”, afirma o ginecologista.
O especialista ressalta que a orientação não significa abandonar a prevenção, mas realizar os procedimentos indicados para cada situação.
Cuidados mudam conforme a fase da vida
As necessidades de acompanhamento também variam ao longo dos anos.
Na juventude, a atenção costuma se concentrar na saúde sexual e reprodutiva, prevenção de infecções sexualmente transmissíveis, contracepção e vacinação contra o HPV.
Na vida adulta, passam a ganhar importância fatores de risco metabólicos e cardiovasculares, planejamento reprodutivo e histórico familiar de câncer.
A partir dos 40 anos, a avaliação da saúde das mamas recebe maior atenção. Depois dos 50, os cuidados também incluem menopausa, saúde óssea e prevenção de doenças cardiovasculares.
Para Campagnaro, o objetivo é manter o acompanhamento médico sem transformar cada consulta em uma solicitação automática de exames.
“Em prevenção, fazer o exame certo, na idade certa e no intervalo adequado costuma ser muito mais importante do que simplesmente fazer muitos exames”, conclui.
O que você precisa saber
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Exame |
Orientação apresentada pelos especialistas |
|---|---|
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Teste molecular para HPV |
Está sendo implantado progressivamente no SUS como principal exame de rastreamento do câncer do colo do útero. |
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Papanicolau |
Continua sendo utilizado onde o teste molecular ainda não está disponível e em situações específicas. |
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Mamografia |
A faixa prioritária do Ministério da Saúde é de 50 a 74 anos, a cada dois anos; sociedades médicas também recomendam rastreamento a partir dos 40 anos. |
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Ultrassom transvaginal |
Indicado para investigar sintomas ou alterações clínicas, não como exame anual obrigatório para todas. |
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Ultrassom das mamas |
Pode complementar a mamografia em situações específicas, mas não a substitui. |
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Ressonância das mamas |
Utilizada conforme avaliação médica, especialmente em mulheres de alto risco ou diante de indicações clínicas. |
Atenção: sintomas persistentes, alterações nas mamas ou sangramentos anormais precisam de avaliação médica, independentemente da idade ou da data prevista para exames de rotina.
Fonte: Informações dos médicos Carlos Campagnaro, do Hospital São José e Unesc, e Jeane Pissara Monteiro, do Hospital Santa Rita.

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