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Sexta-feira, 25 de Setembro 2026
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Super El Niño pode afetar alimentos, água e energia no Espírito Santo

Fenômeno pode prolongar períodos de seca, elevar temperaturas e aumentar riscos de incêndios, alagamentos e deslizamentos no Estado

Conexão ES Redação
Por Conexão ES Redação
Super El Niño pode afetar alimentos, água e energia no Espírito Santo
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Os efeitos do Super El Niño podem ultrapassar as mudanças na temperatura e no regime de chuvas e chegar diretamente ao cotidiano dos capixabas. Preço dos alimentos, disponibilidade de água, consumo de energia, qualidade do ar e riscos de incêndios, alagamentos e deslizamentos estão entre os pontos que exigem atenção.

A previsão é de que o fenômeno permaneça pelo menos até o início de 2027, com intensidade muito forte entre a primavera e o começo do verão. No Espírito Santo, a tendência é de períodos prolongados de tempo seco, baixa umidade e temperaturas que podem ficar até 2°C acima da média histórica, segundo Débora Rodrigues, geógrafa e professora da Estácio.

“Entre os sinais de alerta estão dias consecutivos de calor extremo e a redução do nível de rios e córregos”, afirma.

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Os reflexos não se limitam às condições meteorológicas. Para Luana Romero, especialista em sustentabilidade e presidente do Instituto Ideias, alterações no clima repercutem em diferentes setores.

“Quando o clima muda, não é apenas a previsão do tempo que muda. Mudam o preço dos alimentos, a disponibilidade de água, a qualidade do ar, a produção no campo e até a rotina das cidades”, diz.

Seca não elimina risco de alagamentos

Embora pareça contraditório, períodos prolongados de estiagem podem ser intercalados por episódios de chuva intensa. E alguns dias chuvosos não significam, necessariamente, recuperação dos rios, reservatórios e da umidade do solo.

Débora explica que a falta prolongada de chuva pode deixar o solo ressecado, compactado e com menor capacidade de absorção. Quando uma precipitação intensa ocorre, parte da água escoa rapidamente pela superfície.

“Como o solo seco e endurecido não consegue absorver a água com rapidez, podem ocorrer alagamentos e enxurradas. Nas encostas, a água pode entrar pelas rachaduras, aumentar o peso e a instabilidade do terreno e favorecer os deslizamentos”, explica.

O problema tende a ser maior em áreas urbanas com poucas superfícies permeáveis, drenagem insuficiente, descarte irregular de resíduos e ocupação de áreas vulneráveis.

Menos água nos rios pressiona abastecimento

Outro ponto de atenção é a redução da vazão de rios e córregos. A combinação entre estiagem prolongada e perda de umidade do solo aumenta a pressão sobre o abastecimento humano, a agricultura e outros usos da água.

“O risco para o abastecimento, a agricultura e o meio ambiente é real. Quando os rios perdem vazão e a umidade do solo diminui, aumenta a pressão sobre os diferentes usos da água”, alerta Débora.

Para Luana, medidas individuais de economia são importantes, mas precisam estar associadas a políticas de segurança hídrica.

“Economizar água é importante, mas não podemos colocar toda a responsabilidade sobre o cidadão. O enfrentamento exige proteção de nascentes, recuperação de matas ciliares, fiscalização, redução das perdas nos sistemas de abastecimento e planejamento para os períodos de escassez”, afirma.

Efeito pode chegar ao preço dos alimentos

No campo, a irregularidade das chuvas pode afetar diferentes etapas da produção. A estiagem reduz a disponibilidade de água no solo e aumenta a necessidade de irrigação. Chuvas concentradas em curtos períodos, por outro lado, podem prejudicar lavouras, dificultar colheitas e comprometer estradas utilizadas para o escoamento da produção.

No Espírito Santo, café e fruticultura estão entre as atividades que demandam atenção. Em algumas regiões, produtores já enfrentam restrições de horários para irrigação. Caso a estiagem se prolongue, o estresse hídrico pode comprometer a produtividade.

Esse efeito pode percorrer toda a cadeia até chegar às prateleiras. Menor produção e gastos maiores com irrigação, energia, transporte e recuperação de lavouras podem pressionar os preços de frutas, verduras, legumes, grãos, leite e carnes.

“Os alimentos percorrem um longo caminho antes de chegar à nossa mesa. Se a lavoura produz menos ou se o transporte é prejudicado por secas, enchentes ou estradas interditadas, toda essa cadeia fica mais cara”, observa Luana.

O El Niño, porém, não é o único fator responsável pela formação dos preços dos alimentos.

Famílias de menor renda sentem mais

Uma eventual alta no supermercado tende a ter impacto proporcionalmente maior entre as famílias de menor renda, já que a alimentação representa uma parcela mais significativa de seus gastos.

“Uma família com mais recursos consegue absorver parte da alta ou substituir produtos. Para quem já vive com o orçamento apertado, qualquer aumento pode comprometer o acesso a uma alimentação adequada e pesar ainda mais nas demais despesas essenciais”, afirma Luana.

A pressão também pode aparecer no consumo de energia. Temperaturas elevadas aumentam o uso de ventiladores e aparelhos de ar-condicionado, enquanto a escassez hídrica pode trazer consequências para diferentes atividades econômicas.

Calor e seca favorecem incêndios

Pouca chuva, vegetação seca, baixa umidade e temperaturas elevadas formam uma combinação favorável à propagação de queimadas e incêndios florestais.

Além das perdas ambientais e econômicas, a fumaça pode comprometer a qualidade do ar e agravar problemas respiratórios, especialmente entre crianças, idosos e pessoas com doenças pulmonares ou cardíacas.

“A queimada não afeta apenas o local onde o fogo começa. A fumaça se espalha, os animais perdem abrigo, o solo fica mais frágil e os recursos hídricos podem ser comprometidos. É um problema ambiental, econômico e de saúde pública”, afirma Luana.

Estado prepara ações para 2026 e 2027

Para coordenar medidas de prevenção, monitoramento e resposta, o Governo do Espírito Santo criou o Centro Integrado de Comando e Controle para o Enfrentamento dos Impactos do El Niño 2026/2027.

As ações incluem acompanhamento das bacias hidrográficas e das condições meteorológicas, reforço dos alertas da Defesa Civil, fiscalização do uso da água, mobilização de brigadas contra incêndios e orientação aos produtores rurais.

Para Luana, a prevenção depende também de fazer a informação chegar às comunidades expostas aos riscos.

“Não basta produzir informações técnicas. A população precisa compreender o alerta, conhecer os riscos da região onde vive e saber como agir diante de uma emergência”, afirma.

A orientação é acompanhar os comunicados dos órgãos oficiais e adotar medidas preventivas. Alertas da Defesa Civil Nacional também podem ser recebidos gratuitamente por SMS mediante o envio do CEP da localidade para o número 40199.

“O El Niño é um fenômeno natural, mas seus efeitos também dependem do quanto estamos preparados para enfrentá-los. Transformar informação em prevenção é fundamental para proteger a produção, os territórios e, principalmente, as pessoas”, conclui Luana Romero.

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