O colapso de uma geleira no Himalaia, ocorrido na quarta-feira (26), provocou uma das mais graves tragédias recentes na região entre o Nepal e o Tibete. Uma massa de gelo se desprendeu e desencadeou uma enxurrada de água, lama, rochas e detritos que avançou por vales, atingiu comunidades e destruiu infraestrutura. As operações de busca continuam, e o número de vítimas ainda pode mudar à medida que as equipes chegam às áreas afetadas. (Reuters)
As circunstâncias exatas do colapso ainda são analisadas. Embora não seja possível atribuir isoladamente um evento desse tipo à mudança climática, cientistas alertam que o aumento das temperaturas exerce pressão crescente sobre as geleiras e amplia riscos associados ao recuo do gelo, como avalanches, fluxos de detritos e rompimentos de lagos glaciais. (World Meteorological Organization)
Para Luana Romero, especialista em sustentabilidade e presidente do Instituto Ideias, a tragédia reforça a necessidade de olhar para os efeitos das mudanças do clima também pelo ponto de vista da prevenção.
“O que aconteceu no Nepal mostra que a crise climática não é uma previsão distante. Seus sinais já estão nas geleiras, nas ondas de calor, nas secas, nos incêndios e nas chuvas extremas que atingem diferentes partes do planeta”, afirma.
Geleiras perderam bilhões de toneladas de gelo
As geleiras são grandes massas de gelo formadas pelo acúmulo e pela compactação da neve ao longo do tempo. Além de influenciarem o sistema climático, funcionam como importantes reservas de água doce e alimentam rios dos quais dependem comunidades, lavouras e sistemas de geração de energia.
Dados da Organização Meteorológica Mundial (OMM) mostram a dimensão das mudanças em curso. Entre 2000 e 2023, as geleiras do planeta perderam, em média, cerca de 273 bilhões de toneladas de gelo por ano. No período, a perda acumulada chegou a aproximadamente 6,5 trilhões de toneladas. (World Meteorological Organization)
À medida que as temperaturas aumentam, geleiras podem perder massa e recuar. Em regiões montanhosas, esse processo também pode favorecer a formação e expansão de lagos glaciais e modificar a estabilidade de encostas. A própria OMM relaciona o recuo das geleiras ao aumento de perigos como inundações provocadas por lagos glaciais, avalanches de gelo e fluxos de detritos. (World Meteorological Organization)
“Quando uma geleira derrete, a consequência não é apenas a perda do gelo. No curto prazo, podem aumentar os riscos para as comunidades que vivem nas montanhas e nos vales. No longo prazo, o desaparecimento dessas reservas ameaça o abastecimento de água, a produção de alimentos, a geração de energia e o equilíbrio dos ecossistemas”, diz Luana.
A perda de massa das geleiras também contribui para a elevação do nível dos oceanos. Segundo a OMM, o derretimento registrado entre 2000 e 2023 correspondeu a uma contribuição média estimada em cerca de 0,75 milímetro por ano para a elevação global do nível do mar. (World Meteorological Organization)
Planeta atravessa sequência de anos de calor recorde
O cenário ocorre em meio a uma sequência histórica de altas temperaturas. O relatório State of the Global Climate 2025, da OMM, confirmou que o período entre 2015 e 2025 corresponde aos 11 anos mais quentes já registrados. (Organização Meteorológica Mundial)
O aumento da temperatura média global não significa que todos os eventos extremos tenham uma única causa. A relação entre mudança climática e cada desastre precisa ser avaliada cientificamente, levando em conta fatores meteorológicos, geológicos e locais.
No caso das geleiras, porém, há evidências consistentes de perda acelerada de massa em escala global. O fenômeno preocupa especialmente regiões montanhosas onde comunidades e infraestrutura estão localizadas abaixo de geleiras e lagos glaciais.
Prevenção passa por reduzir emissões e preparar territórios
O enfrentamento dos riscos climáticos envolve duas frentes complementares. Uma delas é a redução das emissões de gases de efeito estufa, associada a medidas como expansão das fontes renováveis de energia, combate ao desmatamento e recuperação de ecossistemas.
A outra é a adaptação. Em regiões vulneráveis, isso inclui monitoramento de geleiras e lagos, sistemas de alerta precoce, planos de evacuação, mapeamento das áreas de risco e infraestrutura preparada para eventos extremos.
“Não basta assumir compromissos para as próximas décadas se as decisões tomadas hoje continuam nos levando na direção contrária. Governos e empresas precisam transformar metas em ações concretas, enquanto as comunidades devem participar da construção das soluções”, afirma Luana.
A tragédia no Himalaia evidencia ainda a importância da circulação de informações entre países vizinhos. No Nepal, autoridades apontaram dificuldades relacionadas ao compartilhamento de dados sobre riscos glaciais transfronteiriços, enquanto equipes tentam chegar a centenas de pessoas que permanecem desaparecidas ou isoladas. (Reuters)
Para Luana, episódios dessa dimensão reforçam a necessidade de combinar políticas de longo prazo com medidas imediatas de proteção.
“O desastre no Nepal é um exemplo doloroso de que os sinais estão cada vez mais claros. Ainda podemos evitar os cenários mais graves, mas precisamos reduzir emissões, preparar os territórios e agir com a urgência que a vida das pessoas exige”, conclui.
O que você precisa saber
O que ocorreu: o colapso de uma geleira desencadeou uma enxurrada de água, gelo, lama e rochas na região do Himalaia, entre Nepal e Tibete.
Quando: 26 de agosto de 2026.
Situação: operações de busca e resgate continuam e os números de mortos e desaparecidos seguem sujeitos a atualização. (Reuters)
Mudança climática: cientistas evitam atribuir isoladamente o desastre ao aquecimento global, mas o aumento das temperaturas está associado à perda de massa das geleiras e à intensificação de riscos glaciais. (World Meteorological Organization)
Dado global: as geleiras perderam, em média, cerca de 273 bilhões de toneladas de gelo por ano entre 2000 e 2023. (World Meteorological Organization)

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